🕯️ O HOMEM DO QUARTO EMBAIXO




Durante três meses, eu aluguei uma casa no interior de São Paulo. Era uma casa velha, de dois andares, meio afastada, com um porão que dava direto pra um quarto subterrâneo — antigo, mofado, sem janelas, com cheiro de pano molhado e ferro oxidado. A dona disse que o lugar tinha sido usado como quarto de ferramentas. Mas eu juro que ouvi ela sussurrar "ele ainda dorme lá" quando se despediu.

Na primeira semana, tudo correu bem.

Na segunda, eu comecei a ouvir passos. Pesados. Como botas de ferro no chão de madeira. Sempre por volta das 3:14 da manhã.

Na terceira semana, o quarto de baixo começou a feder. Era um cheiro de carne velha, apodrecida, misturada com sangue seco. Eu trancava a porta todas as noites. Mesmo assim, acordava com ela destrancada, aberta só um pouco. Um dedinho de espaço.

A quarta semana me destruiu.





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🌲 "A Coisa que Anda de Quatro"




Toda cidadezinha esquecida no mapa tem uma floresta que ninguém se atreve a explorar. Em Avaré, no interior de São Paulo, essa floresta se chamava Mata da Cova. Diziam que os antigos enterravam coisas lá — e não eram apenas mortos.

Julia sabia das histórias. Cresceu ouvindo os velhos falarem da "coisa que anda de quatro", uma criatura que aparecia nas noites sem lua, arrastando o corpo pelo mato, emitindo um som de estalos secos, como ossos se quebrando.

Na adolescência, ela riu das lendas. Mas agora, adulta, voltando pra casa depois de dez anos longe, aquelas risadas não vinham tão fácil.

A casa da avó estava igual. Mesma varanda rangente, cheiro de fumo e naftalina. Mas agora era só silêncio. A velha morrera fazia um mês, e ninguém quis mexer nas coisas.

Julia decidiu dormir lá uma última vez antes de vender o terreno.

Na madrugada, acordou com um barulho vindo do mato. Um estalo. Depois outro. Como um galho seco se partindo. E outro.


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RELATO BONUS



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