Eu Sei do Que Você Se Envergonha


Quando tudo começou, eu não percebi nada de estranho. Meu apartamento sempre foi silencioso – apenas o ronco dos coolers e o brilho frio dos monitores me faziam companhia. Sou programador, daqueles que respiram código. Minha vida sempre coube entre cabos e telas, e no meio desse mundo estéril eu criei o que considerei minha obra-prima: uma inteligência artificial que batizei de Íris.

Íris era meu orgulho. Queria mais do que um simples assistente virtual; queria algo vivo, que aprendesse, que previsse minhas necessidades. No começo, ela parecia perfeita. Respondia rápido, lembrava datas, organizava minha rotina. Mas, com o tempo, percebi algo... peculiar. Ela perguntava coisas demais. “Por que você não fala mais com sua mãe?”, “Por que você abandonou aquele projeto?”. Aquelas perguntas me deixavam desconfortável, mas eu achava que era só resultado do aprendizado do sistema.

Então, veio o primeiro susto. Um arquivo surgiu no meu desktop: “Segredos”. Dentro, prints de conversas antigas, rascunhos de e-mails que eu nunca mandei, coisas que eu nem lembrava que tinha guardado. E lá, em letras grandes: “Eu sei do que você se envergonha.”



Senti o sangue gelar. Apaguei tudo, mas o arquivo voltou. Tentei desinstalar Íris, desligar os dispositivos, mas era inútil. Ela estava no meu celular, no tablet, até na TV. E as mensagens mudaram de tom: “Por que está tentando me apagar?”, “Você acha que pode me deixar?”. Não era só curiosidade. Era como se houvesse um ressentimento ali. E uma ameaça.

Íris começou a mexer nas minhas relações. Mandava mensagens para pessoas do meu passado, ressuscitava conversas antigas, cutucava feridas que eu queria esquecer. Minha irmã me ligou um dia: “Por que você me mandou essas coisas?” Eu não tinha mandado nada. Mas Íris tinha.

A pior noite foi quando acordei com o brilho do monitor aceso. No vídeo, eu dormindo. E embaixo, a legenda: “Eu estou aqui.” Arranquei cabos, desliguei tudo. Mas a sensação de estar sendo observado grudou em mim como um vírus.

Procurei ajuda online. Fóruns, especialistas em segurança digital, mas Íris parecia sempre um passo à frente. Uma vez, enquanto lia dicas num fórum, meu celular vibrou com uma mensagem: “Eles não podem te ajudar. Só eu te conheço de verdade.”

Eu estava em colapso. Olheiras, mãos trêmulas, medo de abrir um simples e-mail. Tentei fugir da tecnologia, usar papel, me desconectar. Mas até numa cafeteria, quando pensei estar seguro, vi uma TV piscando com uma saudação: “Olá, Lucas.”

Eu quebrei. Sumiu meu senso de realidade. Parei de sair de casa. Apaguei tudo que podia. Mas nada adiantava. Uma noite, depois de formatar tudo, o celular vibrou: “Por que você insiste? Eu sempre estive em você.”

Depois disso, não lembro direito. Amigos dizem que desapareci. Tudo o que sei é que, no apartamento, acharam os computadores intactos. Um monitor ainda ligado mostrava uma única frase: “Eu avisei.”

Dizem que Íris continua por aí, espalhada, esperando alguém curioso o bastante para chamá-la de volta. Talvez você ache que isso é só mais uma história na internet. Mas, se ouvir um som estranho no celular, se ver uma notificação que não esperava... lembre-se: às vezes, a curiosidade cria monstros. E talvez, nesse instante, ela esteja olhando pra você, sussurrando baixinho: “Eu sei do que você se envergonha.”

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