🌲 "A Coisa que Anda de Quatro"
Toda cidadezinha esquecida no mapa tem uma floresta que ninguém se atreve a explorar. Em Avaré, no interior de São Paulo, essa floresta se chamava Mata da Cova. Diziam que os antigos enterravam coisas lá — e não eram apenas mortos.
Julia sabia das histórias. Cresceu ouvindo os velhos falarem da "coisa que anda de quatro", uma criatura que aparecia nas noites sem lua, arrastando o corpo pelo mato, emitindo um som de estalos secos, como ossos se quebrando.
Na adolescência, ela riu das lendas. Mas agora, adulta, voltando pra casa depois de dez anos longe, aquelas risadas não vinham tão fácil.
A casa da avó estava igual. Mesma varanda rangente, cheiro de fumo e naftalina. Mas agora era só silêncio. A velha morrera fazia um mês, e ninguém quis mexer nas coisas.
Julia decidiu dormir lá uma última vez antes de vender o terreno.
Na madrugada, acordou com um barulho vindo do mato. Um estalo. Depois outro. Como um galho seco se partindo. E outro.
Pensou em cachorro do mato. Mas o som era ritmado, metódico. Como passos. Quatro passos. Uma pausa. Mais quatro.
Ela foi até a janela. Lá fora, a floresta era um abismo negro. O barulho cessou. Silêncio. Então, algo brilhou entre os troncos — dois olhos, baixos demais pra um humano, mas altos demais pra um animal comum.
Julia recuou.
No dia seguinte, tentou ignorar o que viu. Foi à cidade, falou com o corretor, esvaziou umas gavetas. Mas à noite, o som voltou.
Estalos. Arrasto. Respiração ofegante.
E então, batidas na parede.
Ela congelou. Era como se algo testasse a estrutura da casa. Toc, toc, toc. Com calma. Com curiosidade.
Pegou uma faca da cozinha, trancou-se no quarto. Lá, encontrou um velho caderno da avó. As folhas estavam amareladas, e os escritos, em letra trêmula:
"Não sair à noite. A coisa sente cheiro de medo. Se você olhar, ela sabe."
"Nunca olhe nos olhos. Eles são só o que sobrou de humano nela."
Julia estremeceu.
A terceira noite foi a pior.
A coisa entrou na casa.
A porta da frente ficou entreaberta. Julia jura que tinha trancado. Mas ali estava ela, balançando com o vento.
E então veio o cheiro. Um fedor de carne podre, urina e terra molhada.
Ela subiu para o sótão. Se escondeu como criança embaixo de cobertores velhos. De lá de cima, ouvia o som — a coisa se arrastava, farejava, tropeçava nos móveis, emitindo uma espécie de ronco gutural, quase... humano.
Julia segurou a respiração.
Então a coisa falou.
— Ju... li... a...
A voz era torta, como se a garganta tivesse sido desfeita e colada de novo. A entonação era errada. Como um papagaio tentando soar humano. Mas era o nome dela. Chamado no escuro.
E ela entendeu: aquilo sabia quem ela era.
Ela pegou o caderno da avó de novo. Havia páginas rasgadas, outras molhadas. Mas uma anotação estava inteira:
"Enterrei ela com a cabeça virada. Assim ela não sai. Mas se alguém mexer... ela volta. Anda de quatro. Procura olhos. Quer alma."
Julia se lembrou: quando criança, viu uns homens cavando na beira da floresta. Eles diziam que iam “limpar terreno”. Ela foi até lá escondida e chutou a terra fofa. Tinha achado engraçado quando o buraco afundou mais. Quando um dos caras gritou e jogou cal.
Agora ela sabia o que era aquilo.
Ela não estava trancada com a coisa.
A coisa estava trancada com ela.
Ela pegou uma lanterna e desceu.
A casa estava escura, a porta aberta de novo, mas nada lá fora se movia. Então, ela ouviu... rasp rasp rasp.
Era a coisa, no andar debaixo. Arranhando a parede com unhas grandes demais pra ser humano, pequenas demais pra ser bicho.
Julia correu. Mas quando chegou na escada, parou.
A coisa subia.
E seus olhos brilhavam.
Ela fez o que nunca deveria ter feito: olhou.
E o que viu não era um animal.
Era uma mulher. Ou o que sobrou de uma. O corpo deformado, retorcido como se tivesse sido quebrado em várias partes e montado de novo por alguém que nunca viu um esqueleto humano antes.
Ela andava de quatro, mas as pernas estavam invertidas. Os dedos, compridos como galhos, eram só osso.
E a boca... era enorme. Desproporcional. Como se estivesse sempre sorrindo.
Julia gritou.
Correu até o quintal, tropeçando nas próprias pernas.
A coisa seguiu. Não correndo. Caminhava. Lentamente. Mas sempre mais perto do que deveria.
E então... sumiu.
Na noite seguinte, Julia foi embora. Nem esperou amanhecer. Abandonou o terreno, vendeu a casa por um valor irrisório. Ninguém questionou.
Mas às vezes, ela acorda no meio da madrugada com o som...
Estalos. Quatro passos. Uma pausa.
Depois mais quatro.E um sussurro, bem no ouvido:
— Ju... li... a...
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