🌲 "A Coisa Que Anda Rente ao Chão" 🌲

(Relato encontrado em um caderno embolorado na cabana de Lençóis, Bahia. Assinado apenas com "R.")

Fazem sete dias que voltei da trilha da Serra das Almas, e ainda não dormi direito. Não pelas picadas, não pelo cansaço. É pelo som.

Quando fecho os olhos, escuto aquele som.
Um arrastar. Um roçar de carne úmida na terra. E uma respiração… como se algo estivesse escondido sob meu colchão, esperando eu parar de me mexer.

Mas antes disso — antes do barulho, da coisa, da paranoia — teve a trilha.

Fomos em cinco: eu, Lívia, o Marco, a Jú e o Sombra, que era o apelido do amigo do Marco. O cara andava calado, sempre com o capuz, mas conhecia bem a mata. Era ele quem guiava.

A trilha foi tranquila nas primeiras horas. Pedra, raiz, sol filtrando pelas folhas. Depois de três horas, o sinal do celular caiu e começamos a brincar sobre estarmos entrando em “território de maldição”. Rimos. Bobeira de cidade grande.

A Jú começou a implicar com um cheiro estranho.
“Cheiro de bicho morto”, ela disse.
Mas não achamos nada. Nem carniça, nem pegadas. Só silêncio.

Chegamos à clareira perto das cinco da tarde. Era bonita. Antiga. Com pedras redondas formando um círculo meio torto. No meio, um tronco queimado. “Lugar de ritual”, falou o Marco, rindo.
Mas o Sombra ficou sério.
“Isso aqui não tá no mapa.”
Disse que nunca tinha visto aquele lugar antes.

Foi quando ouvimos o primeiro som.

Algo rastejou ali perto. Muito perto. E não era bicho comum. Não era jiboia, não era tatu. Era… algo pesado, molhado, que deslizava como se o próprio chão respirasse.

A Jú começou a tremer. Lívia segurou minha mão. E o Marco, como sempre, quis bancar o engraçado:
“Deve ser o bicho-macarrão, o monstro da goiabada!”

Ninguém riu.
Porque o som se repetiu. E dessa vez, ele respondeu.
Sério. O som respondeu.

O Marco repetiu o barulho, tipo “shhhhhshrrrrrrrk” arrastado, zombando. E da mata, veio o mesmo som, mais alto.
Como se algo tivesse memorizado o barulho e devolvesse pra ele.

Foi aí que o Sombra mandou todo mundo andar de volta.
“Agora. Não olha pros lados. Anda.”
E a gente obedeceu.

Só que a floresta não era mais a mesma.

As trilhas estavam diferentes. A luz do sol parecia… torta. A sombra das árvores se estendia em ângulos que não batiam com a hora do dia. E o chão... o chão respirava.

Juro por tudo. O chão respirava.

Parecia que tinha algo vivo sob as folhas, pulsando devagar. E quanto mais rápido a gente andava, mais o som seguia: arrastando, imitando, repetindo nossas vozes.

Quando a Jú começou a gritar, ela já não estava gritando em português.
E a voz dela... era a dela, mas também era outra. Uma voz grossa, como se tivesse eco vindo do fundo da terra.

“EU VI OS OLHOS.”
Ela disse isso antes de sair correndo. A gente tentou seguir, mas o Sombra gritou:
“Deixa! Deixa ela ir!”

Ele dizia que se corresse atrás, o bicho marcava o cheiro.
A gente chorava. Mas continuou andando.

Foi o Marco quem sumiu depois. Ele parou pra mijar e não voltou. Quando fomos procurar, achamos a camiseta dele pendurada num galho, mas torcida como se alguém tivesse espremido… com garras.

Chegamos no carro faltando um. E o Sombra? Ele ficou parado na beira da mata, dizendo que “não podia sair com a marca”. Que a coisa já tinha visto ele.
Fumou um cigarro inteiro em silêncio e voltou sozinho.

Só sobrou eu e a Lívia.

Voltamos pra cidade e juramos esquecer.
Mas não deu.

Dois dias depois, a Lívia se jogou do quinto andar.
No bilhete, só uma frase:

“Agora ele sabe meu nome.”

E eu…
Eu tô com os olhos fundos, a pele pegajosa, e não reconheço minha voz no espelho.

Porque ele veio comigo.
Porque no fundo, ele sempre soube que eu voltaria.

E agora, quando eu dormir,
ele vai sair debaixo da cama.
Vai repetir minha respiração.
Vai se arrastar pra cima do colchão.
E vai me engolir pela alma.

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