O SUSSURRO NO VIDRO



Ela acordou no meio da noite com o arranhar de unhas no vidro da janela.
O som era fino, insistente, um convite indesejado vindo do lado de fora.
Achou que fosse o vento brincando com os galhos, até ouvir o próprio nome sussurrado no escuro.

 

— Lí…via…

 

A voz soou rouca, arrastada, saboreando as sílabas.
O quarto estava mergulhado num breu azulado.
O relógio piscava 3:07, o tic-tac ecoava dentro da cabeça.
O coração batia forte, pedindo fuga, mas o corpo não respondia.
O ar parecia denso, frio demais, pesado demais.

 

Virou o rosto, o lençol gelado contra a pele limpa.
O som voltou — rasp, rasp, rasp — compassado, humano demais.


O sussurro insistiu:

 

— Lívia… abre…

 

Quis correr, mas a curiosidade venceu.
Ergueu a cabeça devagar, o travesseiro cedeu um rangido grotesco.
O reflexo no vidro devolveu o quarto em sombras: cama, cortina imóvel, abajur apagado.
E o rosto dela — pálido, tenso.
Mas havia outro.

 

Atrás do reflexo, fundido à imagem dela, surgiu um rosto cinzento.
Os olhos, dois buracos negros.
A boca, larga demais, dentes longos, afiados, pontas amarelas.
O reflexo não piscava.

 

O corpo dela travou.
Piscar foi um erro — o rosto sumiu.
Só restou o escuro lá fora, as árvores imóveis, a névoa cobrindo tudo.


Lívia tentou se convencer de que sonhava.
Pôs os pés no chão frio e foi até a janela.

 

O vidro estava embaçado por dentro.
Passou a mão, apagando o véu de névoa.
Do outro lado, uma mão imitou o gesto.
Pele acinzentada, dedos longos, unhas negras.
A mão estava ali, presa no reflexo.

 

Ela recuou, tropeçou na beira da cama.
A mão do outro lado pressionou o vidro, deixando rastros escuros que desciam devagar, grossos, pesados, lembrando sangue.


O sussurro retornou, próximo demais:

— Eu estou aqui.

 

A lâmpada piscou.
As paredes tremularam.
Sombras se espalharam pelo teto, descendo em ondas ferozes.
O barulho de unhas agora vinha do chão.

 

Lívia virou.
O reflexo mostrava o quarto vazio, mas havia algo agachado no canto.
Um vulto escuro, trêmulo, respirando pesado.
O reflexo sorriu — o mesmo sorriso de dentes longos.
Ela girou o pescoço rápido.
O canto estava vazio.

 

O reflexo, porém, continuava sorrindo.
Os lábios se moviam, formando palavras sem som.
As unhas arranharam o piso, lentas, próximas.
O ar ficou denso, elétrico, e o vidro estalou.
Primeiro uma fissura.
Depois outra.
E mais uma.
As rachaduras avançavam, vivas, até o vidro inteiro pulsar inquieto.

 

Lívia recuou, tropeçou no tapete, caiu de costas.
O reflexo caminhava em direção a ela, dentro do vidro.

A rachadura acompanhava os passos, o vidro pulsando junto, prestes a ceder.

 

O sussurro final entrou na mente dela, frio e íntimo:

— Eu disse pra você abrir.

 

O vidro explodiu.
Estilhaços voaram, luzes morreram, o quarto se calou.

Na manhã seguinte, encontraram a janela intacta.
No vidro, na altura do rosto dela, uma marca de mão — por dentro.

 


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