📜 CAUSOS QUE O POVO CONTA: A RUA SEM NOME


Não oficialmente, o mapa mostrava um traço fino, cinza, tremido, muito estranho.  

À noite, a neblina vinha rasteira, engolindo os postes um por um. A luz não iluminava quase nada, um odor morto acompanhava a neblina, tudo estava amarelado, doente, como uma fotografia antiga, como um dente de fumante, como pus novo. 

Era ali que o ônibus parava.

Sempre no mesmo ponto, mesmo sem haver gente esperando. 

Mesmo assim, o motorista freava, as portas chiavam e o silêncio entrava primeiro, antes de qualquer passageiro, afinal, nunca haviam passageiros. 

Na terceira noite, alguém desceu...






Alguém cansado, cambaleando, parecia bêbado ou realmente doente. 

Andava lento, arrastando os pés, tão perto do chão que parecia anti-natural não cair. 

Ele atravessou a faixa de pedestres devagar, seus passos estavam atrasados em relação ao corpo. Quando chegou à calçada, parou. Ficou olhando para a rua estático, sem se mexer.

A boca? 

Se abriu sem emitir som. 

Não disse.

Ficou Horas ali até que desapareceu, um caminhão passou e quando sumiu no horizonte o homem não estava mais lá. 

Na noite seguinte, outro desceu. Depois outro. Nunca juntos. Sempre sozinhos. Sempre calados. Sempre atravessando.

Ninguém jamais entrou no ônibus naquele ponto, nunca. 

Ninguém nunca via as pessoas que desapareciam sempre depois de horas, sempre depois que algum veículo passava. 

A cidade fingia que não saber.

Sinal de celular? Morria, nunca funcionava, apenas ali. Até os cachorros evitavam passar.

Na sétima noite, o motorista não abriu a porta.

O ônibus parou, como sempre. O chiado não veio, O motor ficou ligado, vibrando baixo, parecia estar nervoso.

Lá dentro, alguém estava de pé.

Era alto demais para o teto. Curvava o pescoço num ângulo errado, seu rosto ficava na sombra, mas o sorriso não. O sorriso refletia a luz do poste, largo, fixo, paciente.

O motorista sentiu vontade de chorar. 

As mãos grossas tremiam. 

A coisa inclinou a cabeça.

— Chegamos — disse, com uma voz que parecia vir de dentro do asfalto.

A porta abriu sozinha.

A neblina entrou com força, espessa, viva, carregada de um cheiro acre. O motorista desceu sem desligar o ônibus. Não olhou para trás, seguiu andando em linha reta.  

Na manhã seguinte, encontraram o ônibus parado no ponto, com o motor ainda ligado e suas portas abertas. 

Vazio.

Desde então, às vezes, alguém jura ver pessoas atravessando aquela rua de madrugada. Sempre sozinhas. Sempre em silêncio. Sempre indo para o lado errado.

Elas não aparecem nos registros.
Não deixam pegadas.
Não lembram quem eram antes de descer.

A rua continua sem nome.

E se você passar por ela à noite e achar que o lugar parece esperar por você, não é impressão.


O ônibus ainda para.

O que será que acontece, quando você entra?







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