Publicação de Carlos Shidoxi



Eu sempre gostei de viajar pelo Brasil, conhecer novos lugares, novas culturas, novas histórias. Décadas atrás, eu viajei pelas regiões de Leopoldina e Manhuaçu, em Minas Gerais, duas cidades históricas e cheias de lendas. Lá, eu ouvi estranhas histórias de arrepiar, contadas por moradores locais, que juravam ser verdadeiras. Uma delas, era sobre uma antiga porteira de uma velha fazenda abandonada na área rural, que guardava um terrível segredo.





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Ouvi que, no pé da porteira, havia uma panela de barro enterrada, repleta de ouro e também de joias. Segundo quem me contou, a fortuna foi escondida pelo antigo fazendeiro que foi o último dono daquelas terras, um homem rico e poderoso, mas também cruel e ganancioso. Ele tinha uma filha única, que era a sua paixão e a sua desgraça. A filha era uma mulher bela e sedutora, mas também perversa e ambiciosa. Ela se envolveu com um homem misterioso, que lhe prometeu amor e riqueza, mas que na verdade era um servo do diabo. Ele a convenceu a fazer um pacto de sangue, que lhe daria poder e imortalidade, mas que também lhe custaria a alma e a aparência. Ela aceitou, sem saber que se tornaria uma abominação, metade mulher, metade bode.

O fazendeiro, ao descobrir o pacto da filha, ficou furioso e horrorizado. Ele tentou matá-la, mas ela era mais forte e mais rápida. Ela o atacou com suas garras e seus chifres, e o feriu mortalmente. Antes de morrer, ele conseguiu enterrar a sua fortuna no pé da porteira, e lançar uma maldição sobre ela. Ele disse que ela nunca poderia sair daquela fazenda, e que nunca poderia tocar no seu ouro. Ele disse que ela ficaria presa ali para sempre, vigiando e protegendo a sua panela, até que alguém tivesse coragem de desenterrá-la e libertá-la.

Ninguém ali tinha coragem de tentar tirar a panela com o ouro, devido à terrível maldição. Diziam que a botija enterrada era vigiada e protegida pela finada e macabra filha do fazendeiro, que ainda rondava pela fazenda, com sua forma monstruosa e sua voz aterradora. Diziam que quem desejasse tirar do chão a panela teria que ir no pé da porteira sozinho, à meia-noite de uma sexta-feira, e cavar bem no pé do lado direito, pois ali estava a panela. Mas que também teria que enfrentar a fúria e a sede de sangue da mulher-bode, que não deixaria ninguém levar o seu tesouro.

Eu ouvi tudo com atenção, e fiquei tentado a arriscar. Eu sempre fui aventureiro e destemido, e não acreditava em assombrações. Eu pensei que poderia ser uma boa oportunidade de ficar rico, e que talvez a história fosse apenas uma lenda inventada para afastar os curiosos. Na sexta-feira, eu subi na moto, e com uma mini pá, uma picareta e um facão de caça nas costas, fui ao local desenterrar a botija e tomar posse da fortuna. Passava das 23 horas, quando, após trilhar uma sinistra e deserta estrada de terra, rodeada de mato, cheguei em frente à isolada porteira branca. Uma velha porteira assustadora, com névoa em volta. Desci da moto, e liguei a lanterna. E à meia-noite em ponto, iniciei a escavação no pé do lado direito. Suava com o esforço, e determinado, eu cavava pensando no ouro.

Estava distraído, cavando, quando percebi a névoa do lado oposto da porteira ir sumindo, por dentro da porteira. Se dissipando. Então, eu com o coração disparado, vi uma coisa horripilante. No pé esquerdo da porteira, surgiu a cabeça negra de um bode. Uma sinistra e apavorante cabeça de bode preto, que foi saindo da terra. Subindo. E me olhando com seus horríveis olhos vermelhos como fogo. Senti um calafrio. Um medo terrível. Nem pensei muito. Só deu tempo de pegar as ferramentas e a minha lanterna do chão. Subi na moto, e olhando para a macabra criatura, que ia ainda se materializando na porteira, eu saí cantando pneu em disparada. Eu acelerei a moto, quase caindo. Saí desesperado. Feito um louco. Eu vi que a maldição era verdadeira. Que a panela de ouro era protegida e vigiada pela finada filha do velho fazendeiro. Pela horrível mulher-bode. Uma riqueza que era realmente amaldiçoada.

Eu nunca mais voltei àquela fazenda. Eu nunca mais quis saber daquele ouro. Eu nunca mais duvidei daquela história. Mas eu também nunca mais esqueci daquela noite. A noite em que eu quase morri. A noite em que eu quase vendi a minha alma. A noite em que eu quase beijei a mulher-bode.

Fim.









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