Essa é tradução de uma obra estrangeira.
Espero que gostem.
🖱️ VOLTAR PARA SELECIONAR PARTE II OU PARTE III🖱️
PARTE I
O primeiro dia do meu cativeiro foi como nascer... ou morrer. No fundo, os dois são meio parecidos: um túnel longo e uma luz forte no final. Talvez não tenha sido como nenhum dos dois, na verdade. Talvez eu esteja lembrando errado, porque, pra mim, naquele dia, tudo o que existia era escuridão.
Eu estava vendada, sentada numa cadeira dura de metal, com cada perna amarrada a um dos pés da cadeira, e os braços presos atrás do corpo. A sensação mais marcante era o silêncio. Um silêncio sufocante, como um cobertor pesado do qual não havia como escapar. A não ser que eu começasse a falar só pra ouvir minha própria voz — um ato de desespero que me recusei a cometer nos primeiros cinco minutos de consciência.
Lembro de pensar que era assim que muitos filmes de espionagem começavam: privação sensorial, o primeiro passo pra fazer o prisioneiro entregar seus segredos. Mas eu não tinha segredos. Eu era um livro aberto — e talvez esse fosse o problema. Uma espécie de celebridade menor no circuito de palestras, confiante, articulada. O rosto ideal daquilo que tantas pessoas gostariam de ser. Não representava ameaça pra ninguém.
Tinha escrito alguns livros e começado a formar uma base fiel de seguidores. Alguém perceberia meu sumiço — pelo menos até minha próxima palestra, dali a algumas semanas.
O dia tinha começado justamente em uma dessas palestras. Um almoço muito agradável, num restaurante muito elegante no centro de Atlanta. Costumava começar e terminar minhas turnês por lá, já que era perto da minha casa nos subúrbios.
O público era, em sua maioria, composto por mulheres — meu principal público, embora eu nunca tivesse planejado ser uma voz feminina. Havia alguns homens espalhados, mas eu não estava prestando muita atenção.
Mulheres vivem de um jeito um pouco diferente dos homens. Estamos sempre alertas. Não é como se vivêssemos em terror absoluto, vinte e quatro horas por dia, achando que algum homem aleatório vai aparecer e nos estuprar ou matar. Só as mais neuróticas pensam assim.
Ainda assim, nunca se sabe que tipo de maluco por aí pode ter se fixado em você. E, apesar de todos os discursos empoderadores e do movimento feminista, no fim das contas... mulheres são presas.
Era nesse lugar que eu estava: na negação quase completa de que aquilo tinha acontecido comigo. Comigo, que sempre fui tão cuidadosa. Tranco as portas, não ando ou corro com fones de ouvido, não aceito doces de estranhos em vans. Você conhece o esquema.
Eu escutava o silêncio e me perguntava como diabos aquilo podia estar acontecendo. Outras coisas também passavam pela minha cabeça. Coisas que me faziam desejar, com esperança, que talvez eu tivesse algum segredo de governo — e, ao compartilhá-lo, pudesse simplesmente seguir meu caminho.
Estupro. Morte. Esquartejamento. Talvez nessa ordem, talvez não. Embora essa ordem fosse preferível a Esquartejamento. Estupro. Morte. Ou Estupro. Esquartejamento. Morte. Você sempre quer que o esquartejamento venha depois da morte. Morrer antes seria o melhor cenário possível. Já vi filmes suficientes de mulheres em perigo pra saber disso, e eu não era nenhuma MacGyver. Não tinha nenhuma caneta no bolso que eu pudesse transformar num míssil balístico.
Meu erro foi estúpido. Deixei minha bebida sozinha. Homens nunca precisam se preocupar com esse tipo de merda. Acho que, estatisticamente, existem menos psicopatas mulheres perseguindo homens do que o contrário, e a maioria dos confrontos entre homens é bem direta.
Como todas as mulheres criadas nesse clima atual de medo e aversão aos homens, fui ensinada a nunca deixar minha bebida sem supervisão. Todas as mulheres sabem disso. Sabemos. Mesmo que não nos digam diretamente, parece que já vem embutido na embalagem e na fiação de ser mulher. É só senso comum na era da droga do estupro.
Esperar que até o homem mais sensível entenda isso de verdade é como esperar que um lobo entenda os detalhes sutis de ser um coelho.
Ainda assim, a gente insiste em acreditar que existem exceções. Como naquele almoço.
Não existem exceções. Se existissem, eu não estaria aqui, amarrada a uma cadeira, ouvindo o som, estranhamente reconfortante, da minha respiração entrando e saindo.
Não conseguia parar de pensar em como meus pais iam reagir a tudo isso. Minha irmã, Katie, tinha morrido anos atrás num acidente. Ela era surda e não ouviu o carro vindo rápido na curva. O motorista não estava acostumado com gelo na estrada. Ninguém no sul está. Meus pais não falavam dela havia anos porque não conseguiam lidar com a dor. Eu não conseguia imaginar como eles iam suportar o meu desaparecimento — e me perguntava se iriam amaldiçoar Deus por fazer isso com eles duas vezes seguidas.
A porta rangeu ao se abrir, exatamente como acontece em filmes de terror. Pelo menos agora eu sabia em que tipo de história estava — não adiantava mais fingir. O som das botas dele ecoou alto no chão de concreto conforme ele se aproximava. Parou a uns dois metros de mim, e o silêncio se arrastou por uma pequena eternidade. Finalmente, me senti obrigada a falar.
“Por que você está fazendo isso?” Minha voz tremia quando falei, e eu odiei isso. Soava fraca. Eu nunca tinha soado fraca antes na vida.
Era uma pergunta tão clichê. Se aquelas fossem minhas últimas palavras, pareciam idiotas e sem importância. Mas eu precisava saber. Por que ele me sequestrou? Será que eu passei algum sinal, ou ele estava obcecado? Havia algo em mim que gritava Vítima?
Sempre tentei passar a impressão de que não era presa fácil. Estava me enganando. Foi ridiculamente fácil para ele me levar.
Por outro lado... talvez eu estivesse completamente errada ao assumir, desde o começo, que meu sequestrador era homem.
Teoricamente, poderia muito bem ter sido uma mulher.
Alguém com inveja do meu sucesso profissional.
Alguém que me odiasse por algum motivo imaginário — tipo o marido dela ter me achado bonita ou algo assim. Como se eu pudesse controlar quem me acha bonita.
Sempre existe aquela chance de uma em um milhão de uma mulher surtar completamente com você.
E eu não odeio homens. Existe uma porcentagem muito pequena de homens que escolhem cometer violência contra mulheres, apesar da facilidade com que poderiam fazer isso. A maioria das mulheres não odeia os homens. As que odeiam, provavelmente não o fazem porque a maioria dos homens é violenta, mas porque eles poderiam ser, se quisessem. Essa consciência gera um tipo de raiva impotente em algumas mulheres. Uma à qual eu nunca tinha sucumbido — até hoje.
Ele ainda não havia dito uma palavra.
Essa conversa toda se passava só dentro da minha cabeça, porque eu tinha medo de dizer algo que me fizesse ser morta. Ou coisa pior. Era ingênuo, mas eu queria acreditar que, dizendo a coisa certa, talvez eu pudesse alterar o curso dos acontecimentos.
Minhas palavras — aquilo que sempre me tornara cativante para as pessoas — eram mais inúteis do que eu queria admitir. Minha única arma tinha a eficácia de uma pistola d’água.
Senti o nó se formando na garganta quando ele se aproximou.
Não conseguia vê-lo por causa da venda, mas sabia que ele me observava. Provavelmente me analisando com diversão.
Me deixava furiosa o fato de que ele tinha minha vida nas mãos — e, ainda assim, talvez estivesse se divertindo comigo.
Continuei esperando pela resposta à pergunta "por que você está fazendo isso?", mas ela não veio.
Existe um protocolo padrão entre vítima e agressor, uma espécie de etiqueta, se quiser chamar assim. “Por que você está fazendo isso?” é a pergunta introdutória — às vezes seguida por gritos ou choro.
Mas eu não estava gritando. Nem chorando.
Queria conservar minha energia para um possível momento de fuga.
Eventualmente ele cometeria um erro. Tinha que cometer.
Depois da frase da vítima, o agressor geralmente responde com algo tão aterrorizante que a vítima se arrepende de ter aberto a boca.
Esse homem, porém, parecia estar se aproveitando do terror da incerteza.
Afinal, se ele falasse comigo, talvez houvesse algo humano ali, algo com o qual eu pudesse argumentar. Alguma esperança frágil com a qual pudesse negociar.
Uma mão grande e fria encostou de leve na minha bochecha.
Não havia violência ou ameaça direta no toque. Era meu rosto — então, certamente não foi um toque sexual. Mas, mesmo assim, era uma ameaça pra mim.
Ele dizia, sem palavras: “Não tenho nenhum problema em invadir seu espaço ou tocar você quando quiser.”
A mão permaneceu firme do lado do meu rosto por pelo menos uns dois minutos, enquanto meu coração continuava martelando no peito.
Aquela mão enorme, forte. Ele poderia me espancar até a morte com ela — ou poderia ser gentil.
Embora, a essa altura, até a gentileza era um ato de violência.
Eu não sabia o que preferia.
Com violência, pelo menos, eu teria a reação de vítima aprovada socialmente. Eu sabia, por experiência, que qualquer outra coisa podia provocar uma reação física completamente diferente.
Aos dezessete anos, me envolvi com meu primeiro namorado de verdade.
Ele era bonito e tinha aquele ar de perigo que garotas dessa idade tanto gostam.
Exalava algo selvagem e assustador — e eu fui junto, só por ir.
A gente se pegava bastante. Minha criação religiosa rígida não permitia mais do que isso sem que eu sentisse o peso da ira divina sobre mim — e orgasmos não valiam uma eternidade no inferno.
Embora, olhando agora, a ideia de que alguma divindade se incomodaria em punir alguém pelo que faz sem roupa parece, no mínimo, estúpida.
Ele me empurrou sobre a cama, minhas pernas pendendo pela beirada.
Estávamos no quarto dele; os pais estavam lá embaixo.
O som do jornal da noite subia pela escada até o quarto.
Eu estava deitada ali, com a calça esquecida no chão — mas ainda usava uma camisa.
Ele queria me fazer sexo oral.
Era mais do que eu estava pronta para viver naquele momento, e eu era paranoica com doenças — com a doença, no singular.
Sim, era esse o nível do meu conhecimento sobre DSTs naquela cultura de abstinência.
Mesmo assim, eu disse não. E eu queria dizer não.
Ele me ignorou, abriu minhas pernas como se me examinasse, segurou meus pulsos com força contra as coxas e me manteve imóvel.
"Você vai gostar, prometo", ele disse.
Lutei, mas ele era muito forte, e eu não tinha apoio pra empurrá-lo.
Enterrou o rosto entre minhas pernas, lambendo lentamente o feixe de nervos ali.
Eu queria gritar, mas não suportava a ideia da vergonha se os pais dele subissem e me encontrassem ali, meio nua, na cama dele.
De algum jeito, era pior saber que eu poderia tê-lo impedido.
Seria uma violação de qualquer forma.
Ou a língua dele no meu clitóris, ou os pais dele sabendo o que estávamos fazendo e me achando uma vadia.
“Por favor, por favor, não.” Eu supliquei.
E mesmo assim, ele não parou.
É incrível como levou tão pouco tempo até minha resistência derreter.
De "Por favor, não" para "Oh Deus, não para".
Quando ele terminou, eu só fiquei ali, deitada, com as pernas tremendo por causa da força do orgasmo.
Tinham virado gelatina.
Eu me sentia fraca, drogada, naquela euforia pós-orgásmica.
O orgasmo pelo qual eu, claramente, não iria para o inferno.
Ele olhou dentro dos meus olhos, com um sorriso satisfeito e disse, zombando:
"Eu te disse que você ia gostar. E agora, o que se diz?"
"Obrigada."
Era nossa piada interna.
Nunca tinha sido usada em nada sexual.
As palavras escaparam antes que eu pudesse impedi-las — e, em algum nível, eram verdadeiras.
Ele e eu nunca mais falamos sobre o que aconteceu depois disso, e ele nunca mais me forçou diretamente. Nem precisou. Eu não dei a ele essa oportunidade, porque era tudo muito confuso. Na cabeça dele, tenho certeza de que achava não ter feito nada de errado, já que conseguiu mudar minha mente virando meu corpo contra mim. No fim, eu tinha gostado. Todo aquele episódio sórdido, do começo ao fim.
O contraste entre o medo e a impotência, ao lado do prazer completo e da rendição final. Passei meses me masturbando com as lembranças daquele momento. Demorou anos para que eu comentasse com uma amiga.
Ela insistiu que não era diferente de estupro. Acho que ela estava certa, mas eu nunca tinha visto assim. Por alguma razão, nunca tive a reação emocional ‘normal’. Eu tinha chegado ao orgasmo. Havia algo diferente em como meu corpo reagia, e isso talvez tenha sido a única coisa que me salvou. Com o tempo, desenvolvi uma vergonha intensa por isso — não porque fui violada, mas porque não havia me traumatizado da forma “adequada” pelo que me fizeram. Porque, às vezes, eu ainda me tocava pensando naquilo.
Pensei que ele tinha me deixado em paz de novo, mas então ouvi outra cadeira de metal rangendo no chão. O peso dele pousou nela, e algo foi colocado sobre a mesa. Minha respiração falhou.
Instantes depois, uma colher mexeu delicadamente meus lábios. Abri a boca, e uma sopa quente de galinha escorreu pela minha garganta. Comida reconfortante. Ah, ironia… Não fiquei com medo de que ele tivesse drogado a sopa. Por que ele faria isso? Drogas tinham sido apenas uma conveniência para me transportar. Ele me tinha onde queria, sem dúvida numa espécie de cela abafada e à prova de som no subsolo. Ouvi-o esmigalhar bolachas na sopa antes de me dar outra colherada. Nem percebi o quanto estava com fome. O medo intenso costuma desligar a fome.
Depois da segunda colherada, a mão dele afagou um de meus seios por cima da roupa. Enrijeci e estremecei, afastando-me. Ele não gritou nem me espancou. Simplesmente pousou a tigela de volta na mesa e se levantou. Então, seus passos começaram a se afastar, na direção de onde viera.
Tensei ao ouvir a colher bater de novo na tigela. Eu sabia o que isso significava. Cada célula do meu corpo ficou alerta, esticada, tentando se afastar, enquanto a mão dele se fechava sobre meu seio mais uma vez. Ele não tentou tirar minha roupa. Parecia querer que eu consentisse com cada etapa da minha profanação.
Eu não queria reagir, mas o polegar dele acariciava meu mamilo por cima das camadas de roupa com tanta delicadeza, de forma tão tentadora, que me vi arqueando o corpo em direção a ele. Quis me afastar com um tranco, mas se fizesse isso, ele iria embora — e levaria a comida junto. Dessa vez, meu pedido talvez não o trouxesse de volta.
Esse padrão se repetiu várias vezes. Primeiro uma colherada, depois um toque. Até que a sopa acabou. Ele queria ter certeza de que eu entendesse as condições. Nada me seria dado de graça. Eu pagaria por tudo.
Ficava rebobinando o dia na minha cabeça. E se eu tivesse feito algo diferente? E se eu não tivesse saído da mesa? Tinha mesmo sido necessário retocar o batom tão perto do fim do evento? Teria um tubo de cera colorida chamado Sassy Vixen sido o catalisador que me tirou a liberdade?
Eu sabia que era loucura pensar assim. Ele teria me pego mais cedo ou mais tarde, se fosse determinado o bastante. Aquele momento no tempo não era o momento definitivo. Eu teria outro instante de descuido mais adiante e pagaria por ele então.
Terminamos a tigela de sopa e um constrangimento caiu sobre nós. Como se ele só tivesse planejado até ali e não soubesse o que fazer depois. Talvez estivesse esperando por mim.
Ok.
“Por favor, me diga por que está fazendo isso.” Minha voz estava mais firme agora. Talvez fosse a aliança cativa/captor que parecia estar se formando. Ele não parecia do tipo impulsivo. Parecia mais alguém capaz de esperar eternidades para que tudo saísse como queria.
Nenhuma resposta.
Ele colocou os dedos nos meus lábios, me silenciando gentilmente. Não tinha intenção de responder, e eu não tinha poder para forçá-lo. Ele se ajoelhou ao meu lado, e ouvi a faca cortando as cordas que prendiam minhas pernas à cadeira.
Tive vontade de chutá-lo no rosto, mas não o fiz. Se o chutasse, estaria escalando a situação para a violência física real — e ele certamente revidaria. Esse não era um homem com escrúpulos de cavalheiro. Antes que pudesse tomar uma decisão firme contra chutá-lo, minha chance passou, porque ele já estava atrás de mim.
Ele cortou as cordas que prendiam meus pulsos. Não percebi o quanto tinham me machucado, mas agora queimavam ao serem tocadas pelo ar. Ele voltou à minha frente, trouxe meus braços com ele e colocou minhas mãos direitinho no colo, como se eu fosse uma boneca articulada. Mal conseguia respirar.
Tenho um medo profundo e enraizado de facas. Honestamente, não conheço muitas pessoas que não tenham. Para a maioria, uma faca assusta mais que uma arma. Se alguém te mata com uma arma, pode ser rápido, indolor. Facas não oferecem esse luxo. Elas são íntimas e violentas de um jeito que nenhuma arma consegue ser.
Apesar de mãos e pernas livres, eu ainda não lutei. Ele tinha uma faca. E eu estava vendada. Não era preciso ser matemática para calcular essas chances. Antes que eu pudesse levar as mãos ao rosto para remover a venda, ele envolveu meus pulsos com as mãos, esfregando-os, como se estivesse preocupado por ter me machucado.
Mas eu sabia que não era o caso. Alguém que te droga, te sequestra e te prende numa cela não se importa se te machucou. Talvez ele só não quisesse me machucar… ainda. Em um movimento rápido, ele arrancou a venda.
Embora o pedaço de pano escuro não fosse confortável, ele servia como uma proteção. Um filtro. Agora não havia nada entre nós. Olhei nos olhos mais frios e escuros que já tinha visto. Poços insondáveis de algo que eu não reconhecia como humano. Havia uma outridade nele. Algo que o tornava diferente de mim — de qualquer pessoa com quem já tivesse falado.
Esperei que ele começasse com as ameaças verbais agora que o mistério havia acabado. Mas ele não o fez. Apenas me encarou. Eu era o projeto científico dele.
Em outra situação, eu o acharia atraente. Era musculoso, tinha um maxilar firme, cabelo ótimo, nenhum grama de gordura. Imaginei que era isso que as vítimas do Ted Bundy deviam sentir em algum momento: que era impossível acreditar que alguém tão bonito pudesse querer te machucar. O choque de perceber que sim, um predador podia ter um rosto bonito.
Por que ele precisaria forçar alguém? Mulheres provavelmente se jogavam aos pés dele.
Tive um pavor profundo, congelante, de que esse homem queria algo que não poderia conseguir com um encontro. Talvez meu corpo cortado em pedaços e empacotado em papel branco no freezer. Estremeci com o pensamento e me forcei a apagar a imagem.
Monstros não deviam ser bonitos. É a regra. O Corcunda de Notre Dame era feio. O monstro de Frankenstein era feio. Nosferatu… feio. Feio fazia parte do manual. E ainda assim, o homem ajoelhado diante de mim… não era feio. Pelo menos, não por fora.
Olhe para qualquer lugar — menos os olhos — e ele era o homem com quem as mulheres fantasiavam desde a puberdade.
Ele se levantou e recuou de mim então, o olhar cravado em mim como se me pregasse à cadeira. Ele não segurava a faca de forma ameaçadora, mas ainda a segurava. Começou a ir em direção à porta, mas, pensando melhor, voltou, veio até mim e me puxou para fora da cadeira. Eu estava quase no ponto de implorar de novo, mas ele não estava interessado em mim.
Empilhou minha cadeira sobre a que ele tinha usado, dobrou a mesinha de cartas e levou a tigela e a colher.
Eu poderia passar horas, até dias, me repreendendo por não ter pelo menos tentado correr até a porta, mas fiquei aliviada por não ter tentado. Havia um painel de senha na parede. Para sair, era preciso escanear retina e impressão digital. Quem quer que tivesse me capturado, tinha recursos. Talvez eu fizesse parte de algum experimento secreto do governo.
A porta se fechou ruidosamente atrás dele, e eu fiquei sozinha na cela, com nada além das roupas no meu corpo.
Chão de concreto, paredes de concreto, teto de composição desconhecida — tudo cinza. Um vaso sanitário ficava num canto distante, sem tampa, e havia um ralo estranho no chão a alguns metros dele. Era como uma prisão sem grades, sem janelas, sem cama.
Eu não sabia que horas eram, nem por que isso me importava, mas havia algo perturbador em não saber se era dia ou noite. Quando eu dormiria? Não que isso fizesse diferença.
Não havia nada a fazer além de dormir.
Nos filmes, sempre há uma saída. Não importa onde o vilão te prende — sempre há uma forma de escapar. Você pode arrombar uma fechadura, ou usar querosene, um fósforo e algum tipo de pavio e fazer uma bomba para explodir a porta. Pode rastejar pelo forro do teto, ou quebrar uma janela, ou encontrar um ponto fraco na parede e começar a escavá-lo com alguma ferramenta afiada que, por sorte, você tem no bolso.
Minha cela era uma fortaleza. Fazia os filmes parecerem muito forçados. Na verdade, não é tão difícil assim criar uma fortaleza inescapável, se parar pra pensar. Tudo o que você precisa é de um chão sólido, paredes e teto — e uma única saída com escaneamento de retina e impressão digital.
Uma vez li em algum lugar que predadores fazem algo chamado entrevista com suas vítimas em potencial, para determinar se vale a pena correr o risco. Claro que eles não chamam de “entrevista”; isso é linguagem de perfilador criminal.
Fiquei pensando se eu havia sido entrevistada. Eu era conhecida por dar várias palestras por mês. Será que ele esteve em alguma? Me puxou de lado? Fez perguntas charmosas, desarmantes? Me marcou como uma ovelha? Uma Chapeuzinho Vermelho?
Eu não sabia. Mas com certeza me lembraria daqueles olhos. E se eu não tivesse reconhecido o animal predador que ele era, pelo menos teria notado sua beleza. Eu teria saído pra jantar com esse homem se ele tivesse me olhado com uma fração a menos de frieza?
Pensei em quanto tempo ele havia me seguido e em como talvez eu tenha facilitado tudo. Será que fui descuidada com trancas de porta, achando que ninguém estava olhando, que “só dessa vez” estava tudo bem? Será que ele esteve na minha casa, mexendo nas minhas roupas íntimas? Fazendo um checklist do que eu tinha nos armários?
Tive muito tempo pra pensar sobre essas coisas — mas não naquela primeira noite. Depois de ser deixada sozinha na cela, escapei para os sonhos. Ainda sentia os efeitos da droga circulando no meu corpo, então, apesar das circunstâncias, não foi tão difícil.
Sonhei com o almoço. Ele estava lá. Trocamos olhares e ele flertou comigo. Não lembro se, no sonho, eu retribuí o flerte.
Quando acordei, levei vários minutos pra separar realidade de ficção. Acordar na cela era o verdadeiro pesadelo. O sonho tinha sido tão vívido. Cores, sons e cheiros mais vivos e imediatos do que eu me lembrava de já ter vivido na vida real. Eu me agarrava a eles, como se soubesse que seriam a última sensação que teria por um bom tempo.
A cela era mantida numa temperatura constante — nunca muito quente nem muito fria. Havia uma grade de ventilação no teto, mas era alta demais pra alcançar, mesmo ficando na ponta dos pés ou pulando. Passei vários dias debaixo dela, esperando por alguma variação de temperatura, qualquer coisa que se parecesse com uma mudança, com vida.
Mas tudo ali era constante demais. A grade de ventilação existia só pra me torturar com aquilo que eu não podia ter:
uma simples corrente de ar no rosto.
O segundo dia estabeleceu o que viria a ser minha rotina. Eu estava acordada há o que parecia várias horas, andando de um lado pro outro. Parte disso era pelo fato de que eu não fazia ideia do que me esperava. Aquele homem tinha o poder sobre minha vida, morte e tudo no meio disso — e nem sequer ameaçava verbalmente, o que eu poderia analisar.
Cheguei à conclusão de que isso era proposital. Se ele me perseguiu por algum tempo, sabia que eu ansiava por interação social. Falar comigo seria me dar algo — e ele não queria me dar nada. Pra quê exatamente, eu não sabia. Mas se a intenção dele era me enlouquecer, ele tinha um plano brilhante nas mãos.
Só no segundo dia reparei na iluminação. Não era forte nem fraca demais; era aquele brilho monótono, que se espalhava uniformemente pelo teto. Como luz fluorescente, mas não brilhante o bastante pra isso. Talvez luz fluorescente que foi sendo desgastada com o tempo até atingir o ponto exato de me atormentar. Eu nem consigo imaginar a mente de alguém que escolheria essa iluminação e a deixaria ligada constantemente até ela se desgastar só pra me torturar. Talvez tudo isso estivesse só na minha cabeça. Talvez eu já estivesse enlouquecendo.
No fim, me deixei cair num canto da sala, o mais distante da porta. Abracei os joelhos, encostei o queixo neles e fiquei observando a porta como se ela fosse fazer um truque. Ia.
Eventualmente, ela se abriria.
E uma parte de mim queria isso — pra que o que quer que fosse acontecer, acontecesse logo e acabasse.
Mas quando a porta se abriu, mudei de ideia. Comecei a implorar, em silêncio, por mais tempo sozinha. Meu coração batia tão forte que eu achei que fosse explodir. Respirei fundo, devagar, tentando manter a cabeça no lugar. Já tinha considerado correr pra porta, mas sabia que não conseguiria ser rápida o bastante.
A porta se fechou atrás dele com uma sensação de final. Era isso. Fim de jogo. A chance tinha ido embora. Não que eu tivesse uma chance de verdade, mas quando você tá numa situação sem saída, começa a jogar esse jogo imaginário na cabeça, esse tipo de fantasia onde você vence o vilão e escapa.
O vilão ficou parado me observando, com uma bandeja de metal nas mãos. Por um instante, imaginei matando ele com ela. Mas aí voltei à realidade: como eu conseguiria colocar o dedo e o globo ocular dele no leitor biométrico? E ainda tinha o código da combinação. Eu podia morrer de fome tentando adivinhar.
Ele sorriu pra mim — não um sorriso simpático — como se soubesse exatamente o que eu tava pensando. Provavelmente sabia. Sempre tive um rosto muito expressivo; é difícil esconder minhas emoções mesmo nas melhores circunstâncias. Se tenho uma fantasia agradável, meus lábios sobem num sorriso. Se eu fiz isso, com certeza ele entendeu o que significava: que eu estava imaginando vários cenários horríveis de assassinato, nos quais eu não era a vítima.
Ele atravessou a sala e sentou de pernas cruzadas bem na beirinha do que eu considerava meu espaço pessoal. Sopa de frango com macarrão. De novo.
Fiquei encarando a tigela, tentando descobrir qual era o jogo dele. Se era hora do café da manhã, não devia me dar algo típico? Ou isso era só mais uma tática pra me confundir sobre o horário?
Será que ele achava mesmo que sopa ia me fazer esquecer que eu estava trancada num tanque de privação sensorial? Ou era só um jeito de entorpecer meu paladar, assim como os outros sentidos?
Ele esfarelou os biscoitos e levantou a colher até minha boca. Não sei de onde veio a coragem de falar. Eu já tinha passado do medo, mas também estava com raiva — talvez tanto de mim mesma, por ficar ali sentada sem fazer nada, quanto dele.
— Eu posso me alimentar sozinha! — Assim que falei, me encolhi.
Adeus, valentia. Acho que esperava que ele me batesse. Psicopatas não são exatamente conhecidos por seu autocontrole.
Levantei o braço pra proteger o rosto, como se isso fosse impedir algum golpe que ele decidisse me dar.
Nada aconteceu.
Com cuidado, abaixei o braço.
Ele estava ali, esperando calmamente com a colher na mão. Procurei raiva nos olhos dele, mas tudo que vi foi calma — e uma leve pitada de diversão.
Eu o divertia.
Isso me deu raiva o suficiente pra esquecer o medo de novo.
Queria atacar, queria lutar. Naquele momento, não me importava se ele me matasse.
Tinha enfiado na cabeça que, seja lá o que ele ia fazer comigo, só pioraria quanto mais ele demorasse pra fazer. E eu não via nenhuma escapatória.
Se me matasse rápido, era melhor.
Eu também estava mais lúcida do que no dia anterior. A droga já tinha saído quase toda do meu sistema, e eu não estava mais com aquela fome que me faria aceitar qualquer coisa.
Me encolhi ao lembrar de ter deixado ele me tocar por cima da roupa só pra conseguir comer.
Se eu não agisse agora, haveria mais daquilo — e muito pior.
Bati na colher e a tirei da mão dele. Peguei a tigela e arremessei com força contra a parede. O vidro se estilhaçou, quebrando o silêncio.
Minha boca logo fez o mesmo:
— EU NÃO QUERO ESSA PORRA DE SOPA DE FRANGO COM MACARRÃO!
EU QUERO QUE VOCÊ ME DEIXE IR EMBORA, SEU FILHO DA PUTA!
Tinha certeza que isso ia surtir efeito. Alguém tão controlador como ele não aguentaria ver minha rebeldia.
Que ingenuidade fofa da minha parte.
Ele se levantou com a bandeja em uma mão, pegou a colher e saiu da sala.
Foi aí que me dei conta de como tinha sido inacreditavelmente burra.
Sim, ele era controlador. E sim, meu pequeno ataque provavelmente o irritou.
Mas o nível de autocontrole que ele já tinha demonstrado me fez perceber que um ataque como aquele não ia render uma morte rápida — não importava quantos surtos eu tivesse.
Ele tinha gasto tempo demais planejando tudo isso.
Ele ficou fora por apenas alguns minutos, mas nesses poucos minutos eu imaginei pelo menos vinte possibilidades do que ele poderia fazer em seguida.
Uma das opções era me deixar morrer de fome.
Tinha conseguido reunir um pouco de coragem porque normalmente não sinto muita fome logo que acordo — mas passar fome de verdade não era algo que eu queria.
Lembrei disso porque, no dia anterior, eu tinha deixado ele me apalpar uma vez a cada colher de sopa.
Ele podia me matar. Uma parte de mim queria que ele fizesse isso. Seria mais fácil do que viver com aquilo que eu inevitavelmente me tornaria, se ele seguisse o mesmo padrão.
Talvez ele tivesse ido buscar algum instrumento de tortura dramático… ou só a faca que usou no dia anterior pra cortar minhas amarras.
Estremeci com essa última opção e me encolhi ainda mais no canto, como se eu pudesse me pressionar contra a parede até atravessá-la rumo à liberdade do outro lado.
Talvez ele fosse ser rápido com isso.
A porta rangeu ao se abrir de novo e meus olhos saltaram, indo direto pros dele — com medo de ver raiva, mas ainda mais assustada com a ideia de não saber o que esperar.
Ele ainda tinha aquele olhar calmo.
Balançou a cabeça e sorriu.
Se ele não fosse um sociopata, até seria bonito.
Tinha aquele tipo de sorriso torto, meio de menino, que sobe devagar por um lado do rosto e faz a pessoa parecer segura.
Mas não combinava com os olhos dele.
Em vez de facas, armas, ou qualquer outra opção horrível, ele entrou com uma vassoura, um esfregão e um balde.
Puxou uma lixeirinha pra dentro do quarto, e a porta se fechou com força mais uma vez.
Fiquei olhando enquanto ele varria os pedaços sólidos da sopa e os cacos de vidro da tigela, jogando tudo no lixo.
Depois passou o esfregão no chão e, sem dizer uma palavra, levou embora tudo que tinha trazido.
Alguns minutos se passaram antes dele voltar à cela — dessa vez, de mãos vazias.
Caminhou rápido demais na minha direção, e eu me encolhi no canto como um animal ferido.
Ele parou a poucos passos de mim e cruzou os braços sobre o peito.
Tinha o olhar de um pai decepcionado com o filho, como se eu tivesse sido mimada e agido fora dos limites do comportamento humano razoável.
A frieza do olhar dele me obrigou a falar:
— Desculpa.
Minha voz tremia e soou estranha até pra mim.
Essa criatura fraca, indefesa... era mesmo eu?
Passei os últimos cinco anos dando palestras sobre empoderamento e autodesenvolvimento — e ali estava eu, reduzida a isso.
E tão rápido.
Olhei pra ele, e ele continuava me observando com algo que parecia interesse.
Eu podia praticamente sentir a violência girando dentro dele, pronta como uma víbora pra atacar… mas o ataque nunca vinha.
Ele só me encarava, como se esperasse que eu continuasse falando.
Então continuei:
— Por favor, fala comigo. Por que você não fala comigo? Você vai me machucar? Vai me matar? Por favor...
Ele sorriu.
Não sei por que perguntei por que ele não falava.
Eu sabia por quê. Estava cada vez mais claro.
Eu não sabia exatamente por que eu tinha sido escolhida, mas sabia o motivo do silêncio.
Ele tinha me estudado, me seguido, sabia tudo sobre mim.
Contato humano, fala, palavras, música — eu precisava de estímulo.
E ele estava tirando tudo isso de mim.
Tinha quase certeza de que ele estava tentando me quebrar.
E considerando minhas chances de fuga (que eram zero), tinha quase certeza de que ele ia conseguir.
Todo mundo acha que nunca vai quebrar.
Que nunca vai ceder.
Agentes da CIA quebram… mas a pessoa comum acha que não vai.
Vivemos num mundo onde todo mundo vê tanta TV que começa a acreditar que é um super-herói.
Eu sou forte, mas qualquer um pode ser quebrado. Eu sabia disso.
É só uma questão de oportunidade, vontade e persistência.
O que impede que isso aconteça, na maioria das vezes, é que as pessoas sociopatas o suficiente pra quebrar e condicionar alguém não têm o nível de autocontrole necessário.
E as que têm autocontrole não são sociopatas o suficiente.
É por isso que eu temia tanto esse homem — não só por ser prisioneira dele, mas porque via nele essa fusão das duas qualidades.
E isso tornava as possibilidades do que podia acontecer comigo... infinitas.
Ele continuou me olhando, com uma expressão de diversão cruel se formando no rosto — como se isso tudo estivesse sendo ainda mais divertido do que ele tinha imaginado nas longas noites em que provavelmente se masturbava com essa fantasia.
Então ele se virou e foi embora.
O quarto pareceu mais silencioso sem ele — como se, de algum jeito, a presença dele fosse quase equivalente a palavras pra mim.
Várias horas se passaram, e eu comecei a andar de um lado pro outro.
E a dançar.
Eu sei que isso soa insano.
É insano.
Era o segundo dia, e eu estava rodopiando pelo chão como uma bailarina clássica.
Mas você não entende o quão desesperadamente eu precisava de qualquer sensação — qualquer coisa — que me fizesse sentir algo.
Qualquer coisa que me fizesse sentir como uma pessoa, e não como um nada.
Quando eu era menina, fazia balé.
Era bem boa nisso — cheguei até a ser aceita em uma grande academia de dança em Nova York.
Mas no fim, decidi não seguir. A carreira de uma bailarina geralmente acaba aos vinte e cinco.
Na época em que fui aprisionada naquela cela, já teria terminado há cinco anos.
Fiquei feliz por não ter feito disso minha profissão.
Teria acabado com os meus pés.
Embora… eu não conseguia deixar de pensar que pés arruinados eram melhores do que ser prisioneira de um sociopata.
Então eu dancei.
Pra me distrair, pra me transportar pra fora desse plano de existência e entrar em outro — um onde eu fosse livre.
A cela era um palco perfeito, com espaço de sobra pra fazer piruetas e tours jetés de um lado ao outro.
Mesmo com a temperatura constante, na casa dos setenta graus (Fahrenheit), eu conseguia sentir o ar passando no meu rosto quando girava em círculos.
Sentia meus pés tocando o chão com a mesma precisão de sempre — uma que eu nunca tinha perdido, mesmo depois de ter parado.
Ouvia a música na minha cabeça, como memórias de discos pulando nas vitrolas dos estúdios de dança da minha infância.
Achei que tinha vencido uma rodada.
Tinha derrotado o sistema que ele montou com tanto cuidado.
Quando não aguentei mais dançar, desabei no chão.
Estava com sede, começando a sentir fome, mas não ia gritar pedindo comida.
Gritar seria o normal — e eu sabia disso.
Mas já tinha visto como ele reagia quando eu me rebelava.
Ou melhor: como ele não reagia.
Quando quebrei a tigela, ele simplesmente ignorou.
Tudo acontecia no tempo dele, segundo a vontade dele — e qualquer tentativa minha de apressar ou provocar só ia fazer tudo demorar ainda mais.
Disso eu tinha certeza agora.
Além disso, minha garganta estava seca demais pra gritar. Não ia adiantar.
Não sabia quando ele voltaria com comida. Nem com água.
E eu precisava conservar energia.
Poucos minutos depois de eu me sentar no canto, a porta fez um clique — e uma garrafa de água foi colocada no chão, perto da entrada.
Estava gelada, saída da geladeira, e eu fiquei profundamente, indescritivelmente grata.
Mas também fiquei desconfiada.
Será que ele estava do outro lado da porta, me ouvindo?
Tinha microfones ali? Algum tipo de escuta?
Enquanto bebia a água, examinei a parte de cima das paredes.
Era uma área à qual eu nunca tinha prestado muita atenção.
Afinal, eu não alcançava o teto — qual o sentido de ficar deitada encarando ele?
Mas aí eu vi.
No teto, em vários pontos, havia pequenas manchas pretas.
De longe, pareciam só marcas aleatórias.
Mas não eram.
Microcâmeras.
Aquele filho da puta estava me assistindo.
E por tudo que eu sabia, podia ter som também.
Ele me viu dançar.
E depois me trouxe água.
O que isso queria dizer, caralho?
Mas uma coisa estava ficando clara.
Desde que eu tinha recobrado a consciência, ele entrou três vezes na sala.
Nas três vezes, eu estava sentada no canto de trás da cela.
Aquilo provavelmente não era coincidência.
Se eu estivesse certa, ele só entrava na cela quando eu estava sentada naquele ponto específico.
Como eu podia usar essa informação a meu favor?
Obviamente, eu ia precisar comer — então teria que sentar ali em algum momento.
Mas talvez conseguisse evitar visitas indesejadas ficando mais perto da porta quando não estivesse com fome.
Dormir perto da porta também parecia uma boa ideia.
Voltei a pensar na água.
Eu tinha uma ideia bem clara do que estava acontecendo, obrigada, Psicologia 101.
Condicionamento comportamental.
Estudos sobre síndrome de Estocolmo.
Nada disso tinha sido em vão.
Mesmo assim, eu sabia que ter consciência do que ele estava fazendo não impedia que desse certo.
Na verdade, podia até acelerar o processo — já que ele entrou nessa sabendo de antemão qual era minha fraqueza.
Eu deveria ter aprendido a ficar sozinha comigo mesma.
A não precisar de barulho, companhia ou estímulo constante.
Deveria ter aprendido a meditar.
Ou feito yoga.
Ou alguma prática de respiração profunda.
Eu tinha pensado, ainda que brevemente, em me masturbar.
Eu sei que isso soa totalmente inapropriado.
Quando você está numa situação dessas, a última coisa que quer é fazer algo que pareça vagamente sexual — parece um convite.
Mas pra mim, não seria sexual.
Não de verdade.
Seria conforto. Um alívio do estresse.
Algo que me ajudasse a evitar um ataque de pânico.
Mas agora eu sabia que havia câmeras.
Então, por mais que eu desejasse aquele alívio, eu não ia fazer isso.
Era a melhor forma de estímulo tátil —
uma arma no meu arsenal contra os planos insidiosos que já estavam em andamento contra mim —
mas os riscos não valiam a recompensa.
Depois que terminei a água, coloquei a garrafa de volta ao lado da porta e fui sentar no canto.
Queria ver se ele estava me observando de perto o suficiente pra pegar a garrafa logo, ou se esperaria.
Ele estava me estudando, mas eu também estava estudando ele.
Pensei se ele me amarraria pra impedir que eu dançasse, ou fizesse yoga, ou simplesmente me movesse de qualquer forma que tivesse significado — que não fosse só andar em círculos.
Amarrar exigiria um tipo de violência que ele parecia não querer usar —
ainda.
Claro, ele sempre poderia me dopar de novo.
Olhei pra garrafa vazia, meus olhos se arregalando.
Não lembrava se o lacre de segurança estava lá ou não.
Eu só tinha aberto a tampa e bebido —
a sede era tanta que eu nem pensei nisso.
As questões mais básicas de segurança estavam longe das minhas prioridades.
Alguns minutos de paranoia se passaram, mas eu não comecei a sentir sono.
Finalmente, relaxei e escorreguei contra a parede.
Não me lembro de ter adormecido, mas sabia que dormi quando o som da porta rangendo me acordou.
O sonho tinha sido barulhento e colorido —
minha mente subconsciente me inundando com as sensações que eu precisava pra continuar minimamente sã,
pra aguentar as horas acordada.
Pânico me tomou por um segundo —
achei que tinha sido drogada e amarrada —
mas meus braços estavam livres.
Eu estava alerta, sentada, olhando ele com desconfiança quando entrou no quarto.
Conseguia sentir o cheiro da sopa de frango com macarrão vindo da tigela e percebi que estava com fome.
Muito mais fome do que pensava.
Ele colocou a bandeja de metal no chão e sentou do outro lado da sala, como antes.
Ergueu uma sobrancelha, como se perguntasse se eu tinha aprendido a lição.
Será que eu jogaria a sopa de novo e ficaria sem jantar?
Minha boca ficou fechada, mas meus olhos deixaram claro que eu tinha entendido.
Jogar a sopa era inútil.
Não provocava reação.
Só aumentava o tempo até eu conseguir comer de novo.
Ele esfarelou os biscoitos na sopa e trouxe a colher à minha boca.
Era reconfortante, apesar de tudo —
um microssegundo de segurança e calor em cada colherada,
como minha mãe cuidando de mim quando eu ficava doente.
Tentei afastar esses pensamentos.
A sopa não era por minha causa.
Era por ele.
Pra quebrar minhas defesas com mais facilidade.
A água tinha sido o mesmo.
Pequenas gentilezas.
Pra que eu passasse a confiar e depender dele.
Eu não podia esquecer quem ele era.
Eu não era uma convidada.
Estava com medo que ele tocasse meus seios de novo.
Mas ele não fez isso.
Em vez disso, a cada poucas colheradas, ele passava o dedo pela minha bochecha.
Lutei muito pra não recuar — e lutei tanto quanto pra não me inclinar em direção ao toque.
Tentei não reagir.
Só fiquei ali, deixando ele fazer.
E aí ele voltava a me alimentar.
A cada poucas colheradas, repetia o mesmo gesto reconfortante,
como se eu fosse um animal selvagem que ele tentava domar.
Como se estivesse me resgatando.
Às vezes ele passava a mão pelo meu cabelo,
e uma vez — num momento de fraqueza —
eu me inclinei para o toque.
Era estímulo.
Conexão.
Comunicação.
Era alguma coisa.
Mas toda vez que eu me inclinava,
eu me odiava um pouco mais.
Eu tinha pensado, ainda que brevemente, em me masturbar.
Eu sei que isso soa totalmente inapropriado.
Quando você está numa situação dessas, a última coisa que quer é fazer algo que pareça vagamente sexual — parece um convite.
Mas pra mim, não seria sexual.
Não de verdade.
Seria conforto. Um alívio do estresse.
Algo que me ajudasse a evitar um ataque de pânico.
Mas agora eu sabia que havia câmeras.
Então, por mais que eu desejasse aquele alívio, eu não ia fazer isso.
Era a melhor forma de estímulo tátil —
uma arma no meu arsenal contra os planos insidiosos que já estavam em andamento contra mim —
mas os riscos não valiam a recompensa.
Depois que terminei a água, coloquei a garrafa de volta ao lado da porta e fui sentar no canto.
Queria ver se ele estava me observando de perto o suficiente pra pegar a garrafa logo, ou se esperaria.
Ele estava me estudando, mas eu também estava estudando ele.
Pensei se ele me amarraria pra impedir que eu dançasse, ou fizesse yoga, ou simplesmente me movesse de qualquer forma que tivesse significado — que não fosse só andar em círculos.
Amarrar exigiria um tipo de violência que ele parecia não querer usar —
ainda.
Claro, ele sempre poderia me dopar de novo.
Olhei pra garrafa vazia, meus olhos se arregalando.
Não lembrava se o lacre de segurança estava lá ou não.
Eu só tinha aberto a tampa e bebido —
a sede era tanta que eu nem pensei nisso.
As questões mais básicas de segurança estavam longe das minhas prioridades.
Alguns minutos de paranoia se passaram, mas eu não comecei a sentir sono.
Finalmente, relaxei e escorreguei contra a parede.
Não me lembro de ter adormecido, mas sabia que dormi quando o som da porta rangendo me acordou.
O sonho tinha sido barulhento e colorido —
minha mente subconsciente me inundando com as sensações que eu precisava pra continuar minimamente sã,
pra aguentar as horas acordada.
Pânico me tomou por um segundo —
achei que tinha sido drogada e amarrada —
mas meus braços estavam livres.
Eu estava alerta, sentada, olhando ele com desconfiança quando entrou no quarto.
Conseguia sentir o cheiro da sopa de frango com macarrão vindo da tigela e percebi que estava com fome.
Muito mais fome do que pensava.
Ele colocou a bandeja de metal no chão e sentou do outro lado da sala, como antes.
Ergueu uma sobrancelha, como se perguntasse se eu tinha aprendido a lição.
Será que eu jogaria a sopa de novo e ficaria sem jantar?
Minha boca ficou fechada, mas meus olhos deixaram claro que eu tinha entendido.
Jogar a sopa era inútil.
Não provocava reação.
Só aumentava o tempo até eu conseguir comer de novo.
Ele esfarelou os biscoitos na sopa e trouxe a colher à minha boca.
Era reconfortante, apesar de tudo —
um microssegundo de segurança e calor em cada colherada,
como minha mãe cuidando de mim quando eu ficava doente.
Tentei afastar esses pensamentos.
A sopa não era por minha causa.
Era por ele.
Pra quebrar minhas defesas com mais facilidade.
A água tinha sido o mesmo.
Pequenas gentilezas.
Pra que eu passasse a confiar e depender dele.
Eu não podia esquecer quem ele era.
Eu não era uma convidada.
Estava com medo que ele tocasse meus seios de novo.
Mas ele não fez isso.
Em vez disso, a cada poucas colheradas, ele passava o dedo pela minha bochecha.
Lutei muito pra não recuar — e lutei tanto quanto pra não me inclinar em direção ao toque.
Tentei não reagir.
Só fiquei ali, deixando ele fazer.
E aí ele voltava a me alimentar.
A cada poucas colheradas, repetia o mesmo gesto reconfortante,
como se eu fosse um animal selvagem que ele tentava domar.
Como se estivesse me resgatando.
Às vezes ele passava a mão pelo meu cabelo,
e uma vez — num momento de fraqueza —
eu me inclinei para o toque.
Era estímulo.
Conexão.
Comunicação.
Era alguma coisa.
Mas toda vez que eu me inclinava,
eu me odiava um pouco mais.
Ele firmemente, mas gentilmente, afastou minha mão de seu braço e me conduziu até o outro lado da sala, para o meu canto. Ele balançou a cabeça para mim, com os olhos sérios.
Ele se virou de novo, e dessa vez eu não o segui. Ele me deixou sozinha na cela, e eu escorreguei até o chão e chorei.
Mais uma semana. Foi o preço por me afastar.
Ele não me bateu nem me jogou no chão para me obrigar;
ele apenas me deu mais uma semana. Desta vez, foi pior.
Foi pior porque ele me negou sua proximidade física, o toque.
Nos sete dias seguintes, ele me alimentou com três refeições por dia, sopa de galinha com macarrão, sem variações.
Eu queria comida de verdade e estava disposta a fazer quase qualquer coisa para consegui-la.
Sopa é ótima, mas três vezes ao dia acaba deixando de ser satisfatória.
Você começa a se sentir cheia e, ao mesmo tempo, com fome.
Ele não entrou na cela nenhuma vez.
Ele só abria a porta e deslizava a bandeja nos horários certos.
Ele não me tocava nem me alimentava diretamente.
Eu me sentia completamente desamparada.
Não podia acreditar que tinha me apegado tanto à presença do meu captor até experimentar sua ausência.
As chuveiradas quentes tornaram-se uma memória distante.
Em vez disso, uma vez por dia ele enviava um grande balde de água morna, uma esponja, sabonete e shampoo. E, claro, uma toalha limpa e um novo conjunto das mesmas roupas monótonas que ele vinha me vestindo há uma semana.
E um pente, assim como uma escova de dentes e pasta.
Agora o ralo em frente ao vaso fazia sentido.
Quando arrastei o balde pesado até o canto para tomar banho, estava ciente de como eu estava completamente exposta. Se ele quisesse, poderia me assistir enquanto eu me limpava, e provavelmente o fazia.
Eu tomava cuidado para racionar a água, para ter o suficiente para o banho, e também para lavar e enxaguar o cabelo.
Eu havia parado de dançar. Não queria mais resistir. Não queria mais segurar o que pudesse porque sabia que ele estava me quebrando e conseguindo.
Dançar só fazia o tempo passar mais devagar. Eu queria acabar com isso para poder seguir para a próxima coisa que teria que suportar sob seus cuidados.
Só nos meus sonhos eu sentia alguma coisa.
Comecei a sonhar com ele, a mão dele no meu rosto, me alimentando.
Até minha mente subconsciente estava contra mim.
Em vez de sonhar com cores vivas, sons altos e sabores intensos, eu começava a sonhar com a cela com ele dentro.
Meus desejos mudaram: antes eu queria o mundo lá fora, agora só queria que ele voltasse para a minha cela e que meu castigo acabasse.
Eu queria provar que podia ser melhor. Que podia obedecer e fazer o que ele queria.
Finalmente, no sétimo dia, ele entrou.
Sentou-se à minha frente como se nada tivesse acontecido, como se não tivéssemos tido dias sem comunicação, e começou a me alimentar.
Quando ele tocou meu rosto, me encostei desesperadamente na sua mão.
Queria que ele ficasse satisfeito comigo, que soubesse que podia confiar em mim agora.
Quando a sopa acabou, ele tirou a bandeja.
Senti um momento de pânico, temendo ter feito algo para irritá-lo, que ele me abandonaria por mais uma semana, mas ele voltou alguns minutos depois.
Aproximou-se de mim e começou a desabotoar minha blusa. Dessa vez, eu não me afastei.
...
Ela não resistiu enquanto ele tirava primeiro sua blusa, depois sua calça de moletom.
Ela ficou nua, tremendo, insegura. Queria se cobrir, mas tinha medo de que, se fizesse isso, ele a punisse novamente. Então ficou ali, olhando para o chão enquanto ele a observava.
Ela sabia que ele devia ter assistido ela nos monitores de vídeo enquanto ela tomava banho, provavelmente se tocava ao vê-la. E ainda assim, era diferente para ele estar tão perto.
Ele levantou o queixo dela para que os olhos se encontrassem, e sorriu.
Ele estava satisfeito, e ela não conseguiu evitar um leve rubor de prazer que percorreu seu corpo com essa ideia.
Então, sua boca acariciou a dela, um eco de tudo o que ele tinha sido desde o começo... gentil.
Como se tudo que ele fizesse, fosse apenas para o próprio bem dela. Para ensiná-la.
Ela correspondeu, sua boca aceitando seu toque com fome. As mãos dele deslizaram até seus seios, apalpando-os.
Ela não pensou em se afastar. Em vez disso, pensou em como poderia se aproximar mais e pressionou seus seios com mais força contra as mãos dele, seu corpo gritando por mais contato com o dele.
Ele colocou a venda sobre seus olhos e a conduziu até a porta. Ela estava apavorada para onde ele a levava. Será que havia outras pessoas na casa?
Ela descobriu que tinha pouco com o que se preocupar quando ele a levou para outro cômodo. O teclado de combinação disparou uma série de bipes indistintos, e então ele a deitou numa cama.
Ela havia esquecido das camas, como eram, o que os travesseiros pareciam contra sua pele, ou colchões macios.
Ela ainda usava a venda enquanto ele abria suas pernas, seus dedos mergulhando dentro dela e pressionando seu calor. Ela estava molhada, tão molhada por ele que podia ouvir isso enquanto os dedos dele se moviam para dentro e para fora dela num ritmo caótico. Então a boca dele estava em sua intimidade, conduzindo-a até que ela gritasse.
“Sim, por favor, por favor, não pare de me tocar.”
Sua respiração ficou errática enquanto ela atingia o ápice do orgasmo. Liberação, sensação, prazer depois de tanto nada.
Então ele entrou nela, ainda gentil, penetrando num ritmo constante e reconfortante, como as ondas do oceano batendo na praia.
Ela sentiu a ejaculação dele e então ele saiu dela...
Eu estava deitada na cama, arfando forte, enquanto a porta se fechava com um clique. A venda que ele usou pra me transportar ainda cobria meus olhos. Eu não a tirei. Tinha medo de que, se tirasse, ele me arrancasse da cama macia e quente e me colocasse de volta na cela. Eu não queria voltar pra lá. Se eu tivesse que ser a vadia dele pra ficar fora daquele lugar, eu faria isso.
Senti uma vontade repentina de me cobrir, mas resisti. Recusei-me a me mover sequer um centímetro do lugar onde ele me deixou. Eu só me moveria quando ele me permitisse, e não antes. Eu precisava demais dele pra deixá-lo bravo comigo agora.
Talvez tenha passado meia hora até que a porta se abrisse de novo — e imediatamente senti cheiro de comida.
Não era sopa de galinha. Era comida de verdade. Ele tirou minha venda.
Sobrecarga sensorial total.
Tinha peru assado, recheio, purê de batata-doce, milho, aqueles pãezinhos de fermento caseiros fofinhos. Eu ataquei como se estivesse faminta — e de certa forma, estava. Tudo tinha um gosto tão bom, muito melhor do que normalmente tem quando como essas coisas no Dia de Ação de Graças. Havia chá gelado adoçado e, ao lado, um pratinho com uma fatia morna de torta de abóbora. Uma lata de chantilly Reddi Whip estava ali ao lado, prontinha pra cobrir a torta.
Provavelmente eu estava comendo como uma porca. Ele não parecia se importar, então eu também não me importei. Ele não parecia estar tentando me treinar a ter etiqueta de mesa. Quando estava me perseguindo, provavelmente me viu comendo em dezenas de eventos, e esse definitivamente não era o jeito como eu comia normalmente — no modo “pá na boca”.
Depois que me convenci de que a comida não ia sumir, desacelerei e comecei a observar o quarto.
A primeira coisa que notei foi a luz do sol. Eu tinha uma janela! Era vidro à prova de balas (descobri isso depois), com grades. Mas ainda assim, era uma janela.
Havia cortinas leves e finas suavizando o visual bruto das grades. O sol estava brilhando, o céu estava azul — e eu podia ver isso. Finalmente, eu sabia que horas do dia eram.
O quarto era luxuoso, com cores vivas e ricas, como aquelas dos meus sonhos. Tecidos pendiam das paredes e desciam do teto. Era como estar dentro de uma garrafa de gênio, só que bem mais espaçosa. Havia várias luminárias de chão e algumas poltronas confortáveis — daquelas em que você se afunda e depois tem dificuldade pra sair.
Ao lado da janela havia um calendário com a data circulada: 3 de junho. Tinha sido meados de maio quando eu fiz minha última palestra.
O quarto era ainda maior que a cela ruim, e tinha quase tudo que se pode imaginar. Havia um CD player e centenas de CDs. Uma escrivaninha ornamentada com uma cadeira giratória que parecia muito confortável. Um lindo diário de couro vermelho repousava sobre a mesa, cercado de mais canetas do que eu conseguia contar.
Havia também um relógio na escrivaninha que mostrava serem três e meia da tarde.
Uma das paredes era toda de estantes com mais livros do que eu conseguiria ler em um ano. Vasculhando os títulos, percebi que alguns eram antigos favoritos meus, outros livros que sempre quis ler mas nunca encontrei tempo, e alguns que eu nunca tinha ouvido falar, mas eram de gêneros semelhantes aos outros.
Ele me observava enquanto eu comia e absorvia tudo aquilo. Depois foi até uma mesinha, acendeu um incenso e colocou um CD no player. Música clássica e rica preencheu o ambiente.
A cama em que eu estava sentada era cheia de travesseiros e tinha um edredom de cetim dourado que, de algum modo, não parecia cafona.
Quando terminei de comer, levantei-me com cautela. Estava consciente e envergonhada da minha nudez, mas não ousei me cobrir, com medo de que ele tirasse tudo de mim de novo. Meus pés afundaram no carpete mais macio e espesso que já senti na vida, e eu tive que me conter fisicamente pra não me jogar no chão e rolar como um filhote.
Na outra ponta do quarto havia um enorme closet — grande o suficiente pra ser outro cômodo.
O closet estava abarrotado de roupas lindas, todas no meu tamanho.
— “Posso...?” — perguntei, pegando um jeans de marca e uma regata roxa.
Ele assentiu com a cabeça e foi até uma cômoda, abrindo uma gaveta para mostrar sutiãs e calcinhas, todos combinando, todos de grife.
Vesti-me rapidamente, tentando não me abalar com o fato de ele assistir cada movimento meu. Eu tinha acabado de fazer sexo com ele. Ele tinha tocado e visto cada centímetro do meu corpo.
Esse era um momento estúpido para ficar envergonhada.
Depois de me vestir, voltei descalça até o closet para olhar os sapatos.
Devia haver uns cem pares.
Queria mergulhar neles e experimentar todos, mas não enquanto ele ainda estivesse ali.
Em vez disso, vasculhei algumas caixas até encontrar uma sandália prateada de salto anabela — e as calcei.
Ele me observou por mais um tempo enquanto eu explorava o quarto, fuçando as coisas, soltando uns “ooohs” e “aaahs” discretos, momentaneamente esquecendo que eu ainda era uma prisioneira em uma cela de luxo.
Então ele se levantou, pegou a bandeja e foi em direção à porta.
— “Espera,” eu disse.
Ele parou na porta e se virou pra mim, o olhar curioso.
— “Você não vai falar comigo agora? Por favor? Eu fiz o que você queria.”
Senti vergonha no instante em que falei. O que ele queria era me quebrar tão completamente que eu implorasse pra ele me estuprar, e eu tinha seguido o plano dele à perfeição.
Ele largou a bandeja no chão, atravessou o quarto até mim.
E então, me segurando como um amante, me beijou de novo nos lábios e foi embora.
Eu não sei o que eu esperava. Se ele falasse comigo, eu teria acreditado que poderia começar a negociar. Poderia analisá-lo melhor, dissecá-lo.
Se eu conseguisse me comunicar com ele de alguma outra forma que não fosse permitindo que ele usasse meu corpo... será que ainda assim eu o deixaria fazer o que quisesse comigo?
Depois que ele me deixou à vontade, explorei o resto do quarto. Havia duas outras portas, ambas sem teclado.
Tentei a primeira — e ela clicou e se abriu.
Havia tanto poder nesse momento.
Tanto, que fiquei sem fôlego com ele. Colocar a mão na maçaneta e ela girar, me permitir atravessar a porta...
Foi quase mais excitante do que o que havia atrás dela.
Um estúdio de balé.
A parede era revestida de espelhos, embora eu não conseguisse me forçar a olhar muito pro meu reflexo.
Havia um armário com collants e sapatilhas — todos no meu tamanho.
Em um canto, perto da porta, havia um toca-discos antigo e pilhas de discos de vinil — muitos que eu reconheci dos meus tempos de dança.
Havia muito Tchaikovsky.
Folheei os discos e coloquei um para tocar. Fiz um tour jeté e depois um grand battement. Havia um ventilador num canto da sala e gravuras de Degas nas paredes, perfeitas para me orientar nos giros que eu fazia pelo cômodo. Eu definitivamente usaria o estúdio, mas estava curiosa sobre o que havia por trás da porta número dois.
A mesma excitação de antes percorreu meu corpo enquanto eu pousava a mão sobre a segunda maçaneta.
Houve um medo momentâneo de que pudesse estar trancada, mas ela girou na minha mão e também cedeu.
Era um banheiro.
Mas não um banheiro.
Era O Banheiro.
O tipo de banheiro que você encontra na Architectural Digest.
Havia, claro, um vaso, uma pia, e um espelho. Corri praticamente até o espelho — e desejei não ter feito isso. Meus olhos pareciam assombrados demais para serem meus.
Onde foi parar a minha alma?
Eu não conseguia mais vê-la.
No armário, pilhas de maquiagem — todas da minha marca, nas minhas cores. Certamente eu poderia usar o suficiente para esconder o que havia no meu olhar.
No centro do banheiro, o rei das banheiras:
um enorme ofurô, do tipo que poderia ser um jacuzzi ou até uma pequena piscina.
Ao lado da banheira, um carrinho lotado de esponjas, géis de banho, esfoliantes, sais e bolhas. Velas de baunilha, ainda apagadas, alinhavam-se na borda larga da banheira. E uma caixinha de fósforos repousava numa bandeja minúscula no carrinho.
Eu mal podia acreditar que estava autorizada a tomar um banho sempre que quisesse.
Um banho.
Poderia acender as velas, me afundar na espuma e ler o quanto quisesse.
No canto do banheiro havia um grande chuveiro, e ao lado dele, armários repletos de toalhas felpudas.
Toalhas tão grandes que dariam para embrulhar um elefante.
E todas cheiravam a limpas e recém-saídas da secadora.
Dois roupões brancos de algodão pendiam de ganchos na parede.
Fui até o cômodo ao lado, examinei brevemente a estante de livros, escolhi um clássico e comecei a encher a banheira.
Derramei espuma de baunilha e acendi as velas.
Eu queria fazer tudo ao mesmo tempo.
Ainda não me ocorrera que não era para estar feliz.
Não me sentei para pensar no fato de que eu deveria querer sair dali, e não ter acomodações melhores.
Ainda era prisioneira dele.
Ainda completamente à mercê da vontade e dos caprichos dele.
Ele podia tirar tudo aquilo de mim a qualquer instante e me devolver àquela cela vazia, aquele limbo.
Mas eu me recusei a pensar nisso.
Afundei na banheira, liguei os jatos e comecei a ler.
Estava no meio do terceiro capítulo quando ele entrou no banheiro.
Eu não ouvi a porta se abrir.
Estava tão mergulhada naquela outra dimensão mágica dos livros.
Dobrei a página para marcar onde estava, fechei o livro e deixei-o cair no chão.
Olhei para ele.
Os jatos da banheira criaram ainda mais espuma — uma falsa cobertura para a modéstia que eu havia recuperado depois de uma hora na minha nova cela.
Ele estava ali, parado na porta.
Nu.
E mais bonito do que ele tinha direito de ser, considerando as circunstâncias.
Como estávamos no banheiro — e não no quarto, onde havia um teclado na porta e barras na janela — eu podia fingir que as coisas eram normais.
Podia imaginar que era sua esposa, ou namorada.
Ele era rico — algo inegável, mesmo fora da fantasia.
Pagava por tudo enquanto eu fazia o que esposas e namoradas de homens ricos fazem: me mimava.
Eu podia fingir que tinha dado meu consentimento, que nós tínhamos um relacionamento.
Eu não tinha certeza se a música na outra sala tinha parado sozinha ou se ele tinha desligado, mas de repente o único som no quarto era a água borbulhando furiosamente ao meu redor e a minha própria respiração ofegante, parte por excitação, parte por medo.
Ele atravessou até a banheira e desligou os jatos, e mais uma vez o quarto ficou envolto no silêncio. Eu o observei com cautela enquanto ele entrava na banheira comigo, perturbando o santuário privado que eu havia criado, porque eu o tinha criado com coisas que pertenciam a ele.
O pensamento passou pela minha mente de que, de certa forma, eu pertencia a ele. Eu me vendi por coisas bonitas, embora na época eu achasse que meu preço era muito menor, já que tudo o que eu queria era que qualquer coisa acontecesse, menos que ele me deixasse sozinha. Que alguém se comunicasse comigo de alguma forma. Qualquer forma.
Ele deslizou as mãos por baixo da água, acariciando sua pele, e ela deixou. Ela sabia que seria sua prisioneira, seja na cela nua, seja aqui, nesses três cômodos onde podia fingir que tudo estava bem.
Seus olhos escuros a absorviam enquanto ele puxava o ralo da banheira. Levou vários minutos para a água escoar e, enquanto isso, ele a acariciava debaixo da superfície da água. Ele mergulhou os dedos nela e ela se pegou arqueando o corpo ao toque dele, se esfregando contra sua mão, implorando pelo contato que a faria gozar.
A água rodopiava para fora, deixando uma massa de bolhas restantes. Ele esfregava seu clitóris em círculos leves enquanto ela segurava seus ombros e gemia contra ele.
“Por favor...” ela disse. Tinha certeza de que estava implorando para que ele parasse, para que não fizesse aquilo com ela, para que deixasse sua alma intacta. Mas seu corpo continuava a se mover em direção ao toque dele, e alguma parte sombria dela temia que estivesse implorando para que ele nunca parasse. A umidade se acumulava entre suas pernas enquanto a última água escoava e a mão dele começava a pressionar com mais força contra ela, enquanto ela ofegava.
Ele era bonito, e tinha um cheiro agradável. Fazia o corpo dela vibrar de prazer, e ele lhe dava tudo. Ela não precisava se preocupar com as mesmas coisas que todo mundo: boletos, trabalho, pressão social. Tudo que ela precisava era agradá-lo.
Ela não sabia se queria que ele falasse com ela. Por um lado, se ele resolvesse falar, suas palavras poderiam ser cruéis e exigentes, e sua fantasia seria destruída. Com apenas seus suspiros suaves e gemidos como trilha sonora, era mais fácil fingir.
Ele passou a língua pela barriga dela e subiu entre os seios antes de prender um dos mamilos entre os lábios. Seu aperto cravava-se quase dolorosamente no quadril dela enquanto, com os dedos da outra mão, ele a penetrava com mais força. Ele não a deixava gozar. Em vez disso, a levava até o limite — aquele ponto insuportável em que você faria quase qualquer coisa para obter o alívio final, quando já não é mais capaz de raciocinar.
Ele a levantou da banheira e a carregou de volta para o outro quarto enquanto ela se agarrava a ele, ofegante no espaço quente e macio onde o pescoço dele encontrava o ombro. Ele a colocou de pé e enxugou as bolhas do corpo dela com uma das toalhas. Então, enquanto ela ainda estava meio louca pelo desejo que ele havia despertado nela, ele a empurrou gentil, mas firmemente, para se ajoelhar.
O quarto pareceu encolher. De repente ficou pequeno demais, apertado e claustrofóbico. Ela queria se afastar, mas ele entrelaçou as mãos deles numa imitação de amor e a segurou no lugar, esperando pacientemente.
Ele podia acabar com a fantasia a qualquer momento. Tudo o que ele precisava fazer era gritar com ela, ou machucá-la fisicamente, empurrá-la para baixo e passá-la sem se importar com o que se rasgasse ou sangrasse. Mas ele não fez isso.
“Por favor... não...” Ela olhou para ele, querendo encontrar algum resquício de humanidade enterrado em seus olhos, algo que justificasse a maneira quase civilizada com que ele havia se comportado com ela. Mas ele apenas a observou e esperou, sabendo que seu silêncio tirava todas as palavras dela.
Ela não podia negociar com ele, então negociava consigo mesma. Se ela fizesse o que ele queria, as coisas seriam mais fáceis para ela.
Sua boca se agarrou a ele e ela sugou.
Ele soltou as mãos dela para passar as próprias suavemente pelo cabelo dela. Acariciando, tranquilizando, confortando.
Ela tivera um namorado alguns anos antes que a ensinara a fazer sexo oral profundo. Essa lição não fora em vão, porque a respiração dele ficava cada vez mais pesada e alta. Então ele gozou. Usou uma mão para massagear sua garganta e ajudá-la a engolir.
Ela queria morrer, mas ele não a deixaria. Ele a levantou do chão e a deitou sobre a cama.
Então segurou os pulsos dela contra as coxas e retribuiu o favor.
Os olhos dela se fecharam e ela fingiu que era o namorado, de quando ainda era praticamente uma criança e ele a segurava para fazê-la gozar. Ela pensou em todas as noites depois, quando se masturbava e se fazia gozar com essa lembrança. E ela se contorceu contra a língua do seu captor e gozou novamente...
Ele soltou meus pulsos e foi até o armário. Eu fiquei deitada ali, sem coragem de fechar as pernas, tremendo. Ele escolheu outra calça jeans de grife e um cropped estilo baby doll preto, e os deixou na cama, depois me deixou sozinha.
Minhas mãos tremiam enquanto eu vestia as roupas. Não me preocupei com sutiã ou calcinha, só queria estar coberta, e pensei que ele provavelmente preferia que eu não usasse roupa íntima. Eu me odiei por levar isso em consideração, nem que fosse por um momento.
Eu estava com sede, mas ele tinha pensado nisso. Eu não tinha reparado quando ele me carregou para o quarto, mas ele trouxe uma tigela grande de frutas: uvas, mirtilos, morangos, mexericas e abacaxis. Ao lado, na mesa, havia uma garrafa de água.
Ele estava organizando tudo para não me causar dor; eu é que a causava. Eu causava ao me rebelar. Tudo que eu tinha que fazer era ceder, submeter mente e corpo, e nunca mais seria machucada. Ele cuidaria de todas as minhas necessidades e me daria o melhor de tudo. Seria melhor na cama do que a maioria dos homens que pegam mulheres voluntariamente. Ele dizia isso em tudo que fazia, em cada toque, cada carícia, cada prazer físico que me concedia. Dê tudo a mim. Dê-me sua vontade.
E foi então que eu soube. Eu tinha que matá-lo.
🖱️ VOLTAR PARA SELECIONAR PARTE II OU PARTE III🖱️