COMENTARIO DE AURION:
"Diário de um Algoz: A Rendição que Não se Pede, Apenas Se Sofre"
Aurion sempre dramatico com os titulos não?
Bora continuar essa jornada! Ultima parte.
Essa é tradução de uma obra estrangeira.
Espero que gostem.
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26 de agosto:
Hoje eu encontrei algo bonito e decidi destruí-lo. Queria vê-lo se despedaçar na minha mão e desmoronar aos meus pés. O nome dela é Emily Vargas.
Ela é inteligente, culta e deslumbrante. Articulada.
Ela vai querer alguém para conversar.
Eu estava numa convenção em Nashville, uma daquelas reuniões chatas onde avaliamos a saúde da empresa e todos os acionistas reclamam e choramingam.
Eu realmente não dou a mínima para os negócios, mas era da minha família.
Eu sou um nome conhecido, mas ninguém sabe como eu sou, o que pra mim está ótimo. Prefiro minha privacidade.
Até os empregados vêm só uma vez por semana.
Eles já sabem que sou idiossincrático. Sou um eremita, então, mesmo enquanto o plano se formava, eu sabia que podia escapar com isso. Odeio estar perto de muitas pessoas porque tenho que ter um intérprete como se fosse um estrangeiro. Geralmente, só fico nessas reuniões feito uma estátua, esperando elas acabarem.
Walter fala por mim. Na verdade, a maioria das pessoas acredita que ele é o dono da empresa porque é ele quem sempre fala por ela. A maioria nem sabe do meu problema. Acho que algumas pessoas na reunião acham que sou o segurança dele. Se eu fosse um garoto pálido e magricela, não sei como explicaríamos minha presença.
Quaisquer explicações teriam que ser dadas por Walter. Ele é a única pessoa em quem confio para não me ferrar e guardar meus segredos; embora meu novo segredo seja sensível demais até para ele.
Depois da reunião, vaguei pelo hotel e sentei no bar. Uma mulher chegou e começou a falar comigo. Ela era atraente do jeito dela, pernas longas que pareciam não acabar e um decote onde eu queria enterrar meu rosto. Ela sorriu. Eu sorri. E foi só isso que aconteceu entre nós.
— “Oi, qual seu nome? Eu sou Veronica.”
Deus, até o nome dela escorria sexo. Aquele era o momento. Eu costumava apenas sorrir pateticamente. Em vez disso, virei de volta para o bar.
O barman me conhecia e sabia o que eu gostava, então encontrei um whisky puro na minha frente. Eu engoli o shot e bati no balcão. Ele encheu de novo. Sabia que seria mais feliz se ele continuasse a encher.
— “Caralho, você é um babaca!” — ela disse, e saiu se afastando, seu bumbum balançando deliciosamente enquanto se retirava.
Foi aí que tive a fantasia que sempre tenho. Eu a perseguiria, agarraria e a esmagaria contra a parede, e simplesmente a tomaria. Foda-se toda essa merda social. E é uma merda quando você não pode participar dela.
Então eu a vi, Emily. Ela veio até o bar.
— “Sam, posso pedir um martini?”
O barman sorriu e fez o drink dela. Ela colocou uma pilha de folhetos ao lado, e quando ela olhou para outro lado por um momento, eu peguei um e o coloquei no meu bolso do paletó. O folheto tinha a agenda da turnê dela. Ela bebeu seu martini e nunca falou comigo.
Eu não sabia se devia ficar feliz por isso ou não. Não sei por que ela deveria ter falado comigo. Eu poderia ser algum fã stalker, e estava claro que ela só queria seu espaço.
Pelos próximos vinte minutos, ouvi sua voz lírica enquanto ela flertava com o barman, e ele rebatia. Era uma dança sexual socialmente aceitável para se mostrar abertamente, o equivalente moderno e reprimido a uma orgia romana.
Quando ela saiu, estudei o folheto. Acho que perdi o controle, mas decidi que vou pegá-la. Estou tão fodidamente cansado de estar sozinho, de pagar prostitutas ou procurar mulheres que saibam linguagem de sinais. No fim, todas sentem pena de mim, até as prostitutas. Tenho todo esse dinheiro, e isso não significa porra nenhuma porque não consigo manter um relacionamento com ninguém sem que me tratem como se eu fosse lento por não poder falar.
Prefiro ter medo a ter pena.
Senti-me entorpecido. Eu podia vagamente lembrar daquele bar e do barman. Pensei que o homem ao meu lado poderia ser um fã stalker, ou mais provavelmente alguém cuja esposa o abandonara e, por algum motivo, me culpava por isso.
Às vezes, mulheres em relacionamentos não muito bons eram tocadas por algo em um dos meus livros, ganhavam autoestima e largavam seus namorados ou maridos ou quem quer que fosse. Frequentemente eu era culpado por isso.
Olhei para ele, querendo dizer algo. Talvez ele não soubesse tanto sobre mim quanto pensava, porque certamente teria se comunicado comigo se soubesse. Eu sabia linguagem de sinais por causa da minha irmã.
Claro, eu podia entender porque ele talvez não soubesse disso. Quando Katie morreu, mamãe e papai ficaram tão abalados que, depois de alguns meses, simplesmente a apagaram da memória. Como se ela não existisse. Foi duro para eles.
Na época, achei cruel, mas pensar nela só doía demais. Pensei em contar para ele, mas ele estava apontando para o livro e as páginas marcadas com dobras — aquelas que continham todas as explicações que esperei meses para ter e que finalmente parei de acreditar que receberia.
Não tinha certeza se a linguagem de sinais me ajudaria agora, porque eu realmente sentia pena dele. Talvez isso me matasse. Ele esteve no controle por tanto tempo, e agora que mostrava vulnerabilidade, certamente seu autocontrole não resistiria. Parecia já estar à beira do colapso. As coisas estavam se desenrolando. Então voltei ao diário e folheei até a próxima página marcada.
30 de janeiro:
Sei que sou um maluco. Deixei Walter cuidar das coisas por um tempo. Eu nunca estou em casa. Tenho acompanhado a turnê dela.
Sei que há algo errado nisso.
E sei que o que está errado não é tanto o que faço, mas que não me importo se é errado.
Quando você faz parte da sociedade, certos comportamentos não são aceitáveis. Se você os faz e não sente nada, isso é pior ainda. Mas tenho tentado entender quando é que eu já fiz parte da sociedade.
Mesmo antes de ter uma casa construída no que parece a beira do universo conhecido, mesmo quando me misturava, eu não fazia parte. Sempre fui de fora olhando para dentro. Havia um pequeno grupo com quem eu podia me comunicar em linguagem de sinais, ao invés de só olhar para eles como um idiota.
E agora estou aqui, sentindo pena de mim mesmo. Ou talvez só me justificando. Não, porque intelectualmente sei que isso é errado. Não sou idiota. Tive a melhor educação que se podia comprar. Só que não me importo. E sei que vou sair impune disso.
Enquanto estive em casa, converti alguns cômodos para usar quando eu a tivesse. Isolados acusticamente porque não sei quanto ela vai gritar. Os empregados raramente estão lá, mas por precaução. Configurei os cômodos para parecerem laboratórios, exceto o que tem os monitores — isso parece normal. As portas estão etiquetadas assim.
O pessoal sabe que eu trabalhei com pesquisa de produtos, e eles vão pensar que estou retomando o trabalho. Ouço eles conversando entre si. Às vezes pego pedaços sobre como não saio muito mais e não faço nada. Bem, que merda tem pra fazer?
Assim que os técnicos terminarem o sistema de segurança dos cômodos, posso começar a tirar todo o material de laboratório e colocar o que precisa entrar.
Exceto um cômodo que vou deixar vazio.
Acho que é o melhor jeito. Pensei em usar drogas para fazê-la obedecer, mas isso deixa um rastro. E algo pode dar errado, algum efeito colateral ou alergia, e aí eu ficaria entre deixá-la morrer ou correr o risco de ser pego. Além disso, ter uma drogada comigo não é atraente.
Embora eu não tenha problema moral com o caminho que escolhi, não acho que eu seria tão descuidado a ponto de tirar uma vida. Não sou uma pessoa violenta, exceto por fantasias sexuais ocasionais. Não quero machucá-la fisicamente; só quero tê-la.
Suponho que poderia tentar um desses relacionamentos patéticos de novo. Mas aí eu voltaria a ser alguém que inspira pena. Pela primeira vez quero que uma mulher saiba que não sou indefeso só porque não posso falar com ela.
Não acho que vou precisar machucá-la, no entanto. Conheço sua fraqueza.
Nunca vi ninguém se alimentar da interação social como ela faz. Se eu tirar tudo dela, ela vai obedecer.
Eu a observo nas conferências que ela faz, cuidando para ficar nas sombras, para que ela não me note e perceba que um rosto está sempre ali no meio daquela multidão mutável. Ela se move com leveza, e dá pra entender de onde veio o termo "borboleta social". Ela tem o riso mais musical, e uma ou duas vezes quase senti culpa.
Mas então fecho os olhos e a vejo nua sob mim, sabendo que pela primeira vez na minha vida tenho poder absoluto sobre uma mulher. Alguém que não pode me rejeitar e nem saberia como sentir pena de mim, e essa pontada some de novo.
Eu não conseguia parar as lágrimas que escorriam pelo meu rosto ao ver o quanto ele falava sobre tudo aquilo com naturalidade. Como se falar sobre me destruir fosse a mesma coisa que falar sobre o que iam jantar. A arrogância extrema, a total ausência de remorso.
Olhei para cima de novo, pra ver se, agora que seu segredo estava exposto, ele sentia alguma coisa. Tudo que eu via era o frio no olhar e uma inquietação nova que veio com aquele dia. O dia em que ele ia me libertar. Eu sabia que ele não me deixaria ficar, porque eu tinha entrado demais no mundo dele.
Eu ainda não sabia por que ele fazia aquilo, mas se ele estava me deixando ver o homem por trás da cortina, era porque estava definitivamente acabado comigo.
3 de maio:
Faltam só algumas semanas para ela estar em Atlanta de novo. Não consigo acreditar que vou realmente fazer isso. Por alguns meses pensei que não iria, que era só uma fantasia, como outras. Eu só estava tornando tudo mais real.
Mas gastei uma fortuna com ela; por Deus, eu vou pegá-la. Sei que é uma arrogância extrema pegar ela na cidade dela, mas é o mais lógico pra mim porque é o mais perto de onde vamos. Quanto menor a distância pra transportar, melhor.
Pesquisei várias drogas e encontrei uma que a deixará desacordada por cerca de quatro horas. A viagem de volta, se tudo correr bem, dura só duas. Mas com minha sorte vou pegar trânsito. Não quero que ela acorde amarrada no carro. Isso estraga tudo e ainda daria uma pequena chance de fuga.
Quero que ela saiba desde o começo que não há chance de escapar. Embora, quando eu a levar para a suíte de luxo, espero que ela reaja. Acho melhor que ela solte essa rebeldia logo e veja o quão inúteis são suas ações.
Não a vejo desde março. Em vez disso, tenho pesquisado seu passado, aprendido o que posso. Quero que a suíte tenha tudo que ela gosta.
Por um lado, quero quebrá-la tão completamente que ela faça tudo o que eu quiser sem questionar.
Mas, por outro lado, quero que ela me escolha. Quero que ela seja grata e voluntária. Quero controle, mas não quero que ela grite quando eu a foder.
Sei que o mundo me chamaria de monstro, mas o que me excita é o controle, não uma mulher gritando ou implorando para não ser estuprada. Eu não me importo com um pouco de medo, só quero que ela escolha. Se ela não me escolher, vou deixá-la na cela até mudar de ideia. Esperei por isso por muito tempo. Se ela acha que pode testar minha paciência, está louca.
15 de maio:
Não poderia ter acontecido de forma mais perfeita. Quando ela começou a ficar instável, eu a ajudei para fora. Acho que ela nem me viu. Então desabou nos meus braços. Eu já estava com ela no carro antes que alguém percebesse que ela tinha saído. Não amarrei ela direito até uns dez minutos depois, quando saí da rua principal.
Parei numa saída deserta, amarrei as mãos e os pés dela, vendando os olhos, e a deitei no banco de trás, cobrindo-a com um cobertor. Eu sabia que era mais seguro não colocá-la no porta-malas, porque poderia morrer por intoxicação por monóxido de carbono, ainda mais com as drogas no corpo.
Coloquei ela na cela antes de acordar e decidi não ficar no quarto com ela, só assistir pelo monitor. Fiquei um pouco preocupado quando ela não acordou no horário previsto.
Demorei para perceber que ela estava acordada. Só que ela não gritava nem lutava.
Ela era esperta, economizava energia, esperando o momento de fugir, talvez revivendo os passos e tentando lembrar o que a trouxe até mim. Não planejava tocá-la no primeiro dia, e sei que vou precisar ser mais disciplinado ou vou acabar tendo que machucá-la.
Se não quero machucá-la, tenho que melhorar. Tenho que me obrigar a melhorar. Mas não posso me arrepender completamente. Sentei no chão ao lado dela e toquei suavemente sua bochecha. Nunca senti pele tão macia.
Eu sabia que ela estava apavorada. Provavelmente pensou que eu ia machucá-la, e de repente aquele pouco de cuidado apareceu porque eu era uma pessoa real. Pensei nela por meses como um objeto que estava adquirindo, mas não podia negar o calor da respiração irregular dela, a suavidade da bochecha, ou o fato de ela já estar se encostando em mim, mesmo sem perceber.
Finalmente consegui retirar a mão e lhe dei uma colherada de sopa. Fiquei surpreso por ela ainda não ter reagido. Minha mão acabou alcançando o seio dela, e ela se afastou bruscamente. Isso me deixou com raiva. Não tanto porque ela se afastou, mas porque eu esperava algo diferente.
Comecei a me afastar, mas sua voz me parou. Um pedido suave, desesperado, que apertou minha calça.
Voltei e decidi testá-la para ver até onde ela aguentaria comer. Sabia que ela ainda estava meio drogada, com fome, cansada, com medo. Eu podia testá-la agora e depois esperar uma semana, como planejei.
No fim da tigela de sopa ela arqueava para minha mão, soltando gemidos suaves que tenho quase certeza que ela nem sabia que fazia. Tive a ideia que poderia tê-la naquele momento. Foda-se o plano, só levá-la para a suíte de luxo, cuidar dela com tudo. Mas não era isso que eu queria agora.
Tê-la tão assustada, tão disposta a me agradar se eu a alimentasse... Não posso negar o efeito que isso teve em mim. Vão ser sete dias difíceis. Estou disposto a admitir o que quero. Não quero só ela. Nem só que ela não me sinta pena. Quero seu medo, seu desespero, obediência completa e total. E estou disposto a esperar por isso.
Ela me perguntou por que eu estava fazendo aquilo com ela, e pela primeira vez fiquei feliz de não poder falar. Meu silêncio vai ajudar a moldá-la, minhas mãos vão se tornar minha voz, e eventualmente ela não vai saber a diferença e nem vai se importar. Quebrar a vontade dela será a melhor coisa que já fiz.
18 de maio:
Ela agiu exatamente como eu esperava, jogando a sopa no chão feito uma criança. Acredito que ela ainda pensava que eu planejava matá-la e queria que eu perdesse o controle e o fizesse logo. É a única explicação que consigo pensar para esse comportamento.
Eu vasculhei todos os livros de psicologia comportamental que consegui por meses. Embora eu tenha certeza que os autores não tinham intenção que isso fosse usado assim.
No começo, eu estudava para tentar entendê-la melhor, já que ela tinha formação em psicologia. Depois decidi usar isso para condicioná-la, porque não existe nada mais insidioso do que torturar alguém de um jeito que ela saiba exatamente o que você está fazendo, mas saiba que não pode escapar.
Não, eu não sou realmente violento fisicamente, mas acho que sou sádico. Limpei a bagunça que ela fez e a deixei lá. Ela estragou a comida; não vai ganhar mais. Quando ela aprender que birras são inúteis e não me afetam, vai parar com isso.
Foi estranho e perturbador ver esses eventos pelos olhos dele. Ainda mais ver a confirmação de que nos entendíamos desde o começo. Eu não tinha suspeitado que ele era mudo, claro. Deveria ter, provavelmente, mas ele era tão calculista em tudo o que fazia, por que eu teria assumido uma deficiência? Especialmente uma tão rara?
A mudez geralmente vem acompanhada de surdez, como na minha irmã. E ele claramente não era surdo. Virou para o som da minha voz várias vezes. Não estava só lendo meus lábios.
Além disso, eu estava certa em tudo, e ele estava certo em tudo sobre mim. Comunicar sem palavras nos levou a um lugar onde tivemos que nos entender instintivamente. Eu enxuguei mais uma lágrima que escorria pela minha bochecha e olhei para ele.
“Por favor, não me faça ir,” eu disse. Eu tinha acabado de largar o diário para poder assinar enquanto falava.
Os olhos dele se arregalaram. Ele realmente não sabia que eu sabia linguagem de sinais. Quais as chances, né? A vida é estranha, mas é assim. Eu deveria ter desconfiado da mudez, pelo menos considerando minha história familiar.
Por que não foi uma das perguntas que fiz nos poucos dias em que tive coragem de perguntar? Pensando bem, provavelmente foi melhor não pensar nisso.
Nós dois existíamos num mundo onde as pessoas falavam com as mãos, e ainda assim nenhum de nós suspeitou do outro.
Eu tinha chegado a vê-lo como onipotente e onisciente. Na minha cabeça, ele sabia cada detalhe da minha vida, mas não conseguia pegar todos os detalhes praticamente.
Percebi que a maioria deles ele deve ter conseguido assistindo meus seminários. Eu falava muito da minha vida pessoal nas conferências. Provavelmente mais do que deveria. Mas nunca falei da minha irmã.
Ele ficou me olhando por um longo tempo antes de finalmente responder em linguagem de sinais.
Ler.
Eu pulei para a próxima seção marcada. Pensei que, se eu fizesse o que ele disse sem lutar, talvez ele percebesse que eu valia a pena manter.
Esse pensamento me desestabilizou. A única coisa que me impedia de ter um colapso completo era a ideia de que ele estava me deixando ir porque tentava fazer a coisa certa. Então continuei lendo.
16 de junho:
Por mais excitante que fosse vê-la se submeter, me dar o corpo como um presente embrulhado, eu sabia que não era real. Ainda não. Ela ainda queria sair. Quando ela viu os quartos que dei a ela, sabia quem era.
Quando você dá seu corpo em troca de qualquer coisa, você é uma prostituta, e nada deixa isso tão claro quanto níveis ridículos de luxo.
Enquanto a observava no monitor na noite passada, pude ver as engrenagens na cabeça dela girando enquanto ela planejava me atacar, a forma como estudava objetos em seus quartos que nunca tinha olhado tão de perto antes.
A tentativa foi fraca. Não é que ela não tenha tentado, ela simplesmente nunca teve chance, porque eu a vi esperando perto da porta com suas armas antes que eu entrasse na sala. No momento em que tudo falhou, ela voltou a ser o coelhinho assustado que eu tomei de início, encolhendo-se de mim.
Não tenho certeza se consegui esconder o quanto isso me afetou ao vê-la assim. Eu amo a submissão, mas o medo também me excita.
Estendi minha mão para ela e fiquei surpreso com a rapidez com que ela a aceitou. A resignação e aceitação em seus olhos. E soube que só teria que colocá-la de volta na cela mais uma vez, e depois disso ela seria minha para sempre.
Levei-a para fora e mostrei os arredores, depois decidi deixar ela tentar fugir. Tenho certeza que, se fosse um homem frustrado e mediano, as lágrimas dela me afetariam de outro jeito além de me excitar. A obediência desamparada me faria sentir mal, ou sentir culpa, mas não é assim.
Sei que, se tivesse voz, ainda teria feito isso. Só percebi isso quando a vi andando longe de mim, sabendo que não conseguiria se afastar. Ela era presa, e isso despertou um instinto predatório que suprimia há tempo demais.
Quando ela chegou longe o suficiente, levantei e comecei a persegui-la. Era como se um fio invisível nos prendesse, porque acho que ela sentiu minha presença antes mesmo de ouvir meus passos. Ela começou a correr, e para mim era um jogo. Para ela, sobrevivência e fuga, mas para mim era diversão.
Quando soube que ela podia me ouvir, ela se esticou, e momentos antes de eu poder alcançá-la e derrubá-la no chão, ela parou e se virou para mim, com as mãos estendidas em rendição. Se eu tenho essa necessidade sombria de ter poder completo sobre ela, ela tem uma necessidade quase patológica igual de me dar isso.
Eu nunca esperaria que ela reagisse assim. O medo da dor a conduz de forma tão extrema que ela não luta. De certo modo, o medo da dor parece maior que o medo de qualquer outra coisa, até da morte.
Como eu ainda não a machuquei, ela já confia que, se obedecer, não começarei. Não vou desmentir essa ideia.
Venho tentando comunicar isso desde o início. Ela está segura se me obedecer. Só não esperava uma obediência tão dramática num momento em que a liberdade parecia real e possível, se não fosse pelo fato de estar ao ar livre.
Queria jogá-la no chão e foder ela ali mesmo na grama, mas tenho treinado para ela ver o sexo como recompensa, e fazer isso apagaria tudo que construí até agora. Rangendo os dentes, virei para levá-la de volta à casa. Já decidi que serão duas semanas dessa vez, e não sei como vou conseguir me abster de tocá-la.
30 de junho:
Considerei fazer ela esperar até o 4 de julho para voltar aos quartos legais. Fiquei tentado. Acho que gosto de ironia. Mover ela para lá no dia da independência. Tenho certeza que ela associa aquele quarto com liberdade agora.
Enquanto ela ficou presa dessa última vez, percebi que quero machucá-la. Só não quero machucá-la com raiva. Quero que ela queira que eu machuque ela. Pensei muito nisso enquanto esperava. Acabei montando outro quarto como uma masmorra.
Não pensei que tomaria esse caminho, mas quanto mais fantasio sobre ela, mais me vejo chicoteando-a. E, sério, o que mais eu faria nas duas semanas de espera torturante? Eu precisava de um projeto.
Acho que tudo começou querendo puni-la. Não dei absorventes ou protetores, então ela acabou andando nua pela cela, e quem a culparia? Acho que sangrar nua era melhor do que dar algo para evitar a bagunça. Mas eu continuava vendo o corpo dela na tela, e queria puni-la porque precisava esperar. Não podia pegá-la sem estragar todo o progresso.
Um dia ela falou comigo. Ficou em pânico com a ideia de poder engravidar e que eu a mataria. Não faço ideia por que pensou isso, mas ela é inteligente e descobriu só pelas minhas expressões faciais que não posso ter filhos. Nunca quis, e a vasectomia resolveu o problema. Tudo o que ela sabe, claro, é que sou estéril, e ela não precisa temer isso.
Ela me pediu para falar com ela de novo, disse que faria qualquer coisa se eu quisesse. Isso me irritou. Eu acreditava que ela faria. Mas preciso que ela se submeta sabendo que talvez nunca fale com ela. Porque não posso. Não estou aqui para agradá-la; ela está aqui para me agradar. Nem que pudesse falar, acho que não falaria. Não há compromissos aqui.
Ela obedecerá ou será punida. Se eu for extremo o suficiente no começo com a privação, o medo dela a fará me agradar, e não precisarei me preocupar em corrigir comportamentos errados depois ou traumatizá-la mais do que o necessário.
Enquanto eu estava para sair aquele dia, ela implorou para eu tirá-la dali e não deixá-la sozinha. Eu me masturbei na semana seguinte lembrando da desesperação na voz dela e de como o lábio tremia quando falava comigo.
Depois, claro, quando parou de sangrar, ela ainda andava nua. Nessa altura, tentava me seduzir, e fiquei feliz que ainda tivesse uma semana ali. Queria eliminar todas as variações de rebeldia que ela tinha.
Um dia ela foi tão atrevida que deitou no chão e se masturbou, sabendo que eu assistia. Me masturbei assistindo no monitor e consegui terminar antes dela, para pegar ela e ainda estar no controle. Porque ela teve efeito, mas isso não importa. Ela não vai me dominar pelo meu pau como outras mulheres fizeram. Ela é minha. Ela vai aprender isso e não vai esquecer.
Encarei ela até que parasse, e então saí da sala. Era hora do livro. Queria que ela entendesse que eu era seu mestre, e não conseguia pensar em outra forma de passar essa informação. Se deixasse um bilhete, ela saberia do meu problema ou pelo menos desconfiaria. Então decidi ser o mais maldito estranho possível.
Durante o cativeiro, enquanto trabalhava na masmorra, comecei a destacar a palavra “mestre” toda vez que ela aparecia num romance erótico do quarto dela. Observei, fascinado, enquanto ela andava ao redor do livro várias vezes antes de finalmente pegá-lo.
Ela achou que era uma armadilha. Podia ver nos monitores o medo dela de fazer a escolha errada, sem saber o que eu queria dela.
Ela realmente é mais do que eu poderia ter esperado. Quando decidi pegá-la, foi porque ela era simplesmente linda pra caralho. E agora sei que ela é completamente surpreendente.
Mesmo estudando métodos de condicionamento, não acho que poderia ter esperado uma escrava melhor. Quando voltei para a cela, esperei. Fiquei um pouco desapontado no começo porque ela não falou comigo. Virei para sair, e foi quando ela disse.
E foi aí que ela disse.
“Mestre, por favor.”
Essas palavras, saindo da boca dela. Essa era a senha pra sair dali, a lição terminada. Eu tinha decidido foder ela na bunda, e se ela se submetesse sem resistência, eu a moveria de volta para a suíte.
Fui o mais cuidadoso possível. Não queria rasgar ela. Eu só sabia que aquele era possivelmente o momento em que ela estava mais vulnerável, mesmo depois de tudo o que aconteceu, e se ela me entregasse isso, era completamente minha.
Foi melhor do que eu esperava, e depois disso eu apenas a abracei. Eu precisava que ela soubesse que, se obedecesse, eu a tocaria, deixaria ela gozar, seguraria ela. Tudo que ela tinha que fazer era me entregar a vontade dela por completo e aceitar sua posição. Não há escapatória e ela sabe disso agora. Ela pode morrer na cela ou se submeter.
PareI de ler. Tinha mais, mas eu não conseguia mais ler, não daquele dia.
Eu não suportava ler a reação dele ao me chicotear, a excitação dele com meu medo e desamparo. Eu passei os olhos pelo resto das páginas marcadas procurando uma coisa: por que ele estava me deixando ir.
Mas não estava lá. Nem a última entrada falava de cansaço comigo, nem havia qualquer sinal de arrependimento. Eu olhei para cima então. Meio que esperava que ele insistisse que eu continuasse lendo, mas eu não queria ver mais nada. Já tinha visto demais.
“Você se arrepende do que fez comigo?”
Ele deu de ombros.
“Por que está me deixando ir? Você está me deixando ir?”
Sim. Você está livre para ir. Eu estou te liberando porque terminei com você.
Foi assim, simples. Ele tinha acabado comigo. Me pegou e me considerou um brinquedo, propriedade, e agora como qualquer brinquedo que o dono se cansa, eu estava sendo jogada no lixo.
Eu queria cair de joelhos e implorar para que ele não fizesse isso, mas a expressão entediada nos olhos dele me disse que não adiantaria nada. Ele devolveu as chaves na minha mão.
“A porta da garagem está aberta, e se você apertar o botão vai ver qual carro é. Os faróis vão piscar. Você deve conseguir encontrar o caminho sem problemas.”
“Isso não faz sentido. Talvez você tenha acabado comigo, mas por que me deixar ir com algo que pode ser rastreado até você? Você não tem medo de eu ir na polícia?”
Talvez eu não devesse ter falado isso. Afinal, falar de polícia poderia me enterrar num buraco em vez de me dar liberdade.
Ele deu de ombros de novo. Não me importo nem um pouco. Vá, pegue sua vida de volta, Emily.
Ele demorou mais para soletrar meu nome, uma palavra que tinha se desconectado tanto do meu ser. Eu não podia acreditar que não queria ir. Pensei que haveria algo no diário que explicasse alguma coisa, mas toda explicação era algo que eu já esperava.
“Eu não te agradeci? Fiz algo errado?”
Eu sabia, mesmo ao dizer as palavras, que uma pessoa normal pegaria a liberdade e não faria perguntas, mas eu estava com ele tanto tempo que tinha me acostumado a depender dele. Ele me ofereceu um tipo de segurança que eu nunca tinha experimentado, mesmo que meio distorcida.
“Você me agradou. Não fez nada errado. Superou minhas expectativas. Mas agora precisa ir.”
“Posso levar algumas coisas?” Lembranças. Quão fodido era isso? Eu queria lembranças da minha prisão.
Ele assentiu.
Não peguei muito. Uns CDs do Oriente Médio — as batidas dos tambores me acalmariam — algumas velas, umas roupas favoritas, e meu diário, todas as páginas escritas. Cheio. Era uma espécie estranha de poesia.
Sempre pensei que quando chegasse ao fim do diário ele me compraria um novo, não me libertaria.
Não achei que fosse mais do que coincidência os dois eventos acontecerem juntos, mas era como se eu tivesse escrito um livro, e tivesse acabado o espaço, então a minha prisão também tinha acabado. Peguei as coisas e fui para a garagem, carreguei tudo no carro.
Não sei por que não tentei implorar mais. Acho que tinha uma parte de mim que sabia que realmente não podia ficar. Ele estava me devolvendo minha vida e recusar aquele presente era impensável.
Eu tinha obedecido tanto tempo que, ao receber uma ordem, o instinto era obedecer, não importava o quanto eu não quisesse. Não por medo de punição, mas por desejo de agradar e manter o favor dele.
De todas as coisas que ele quis de mim, essa foi a mais difícil de obedecer. Eu realmente perdi a cabeça. Nenhuma pessoa sã teria tanto horror à ideia de liberdade. Mas com certeza, quando visse minha família e amigos de novo, as coisas seriam diferentes, e eu poderia deixar tudo isso para trás.
Ele não precisou me tirar à força da casa porque eu sabia que ele faria isso, e ter um colapso naquele momento não ajudaria em nada. Eu pertencia a ele, e agora ele me mostrava quão absoluto era isso, descartando-me como qualquer outro pedaço de propriedade que se tornara de pouco interesse.
O carro que ele me deu era um Mercedes prata, e realmente era um presente, porque qual a chance de eu trazê-lo de volta? Joguei tudo no porta-malas, menos os CDs, por cima de um kit de emergência do carro.
Uma pequena pá fez barulho quando o diário bateu no kit.
Demorou uma eternidade para sair da garagem. Parecia realmente interminável. Uma parte de mim se perguntou se tudo aquilo era um teste elaborado para me fazer voltar, mas então eu vi a certeza absoluta nos olhos dele, e não havia motivo para me mostrar meu desamparo. Eu sabia disso; havia levado aquilo para a parte mais profunda do meu ser, e aceitei. Nenhuma lição extra era necessária.
O carro não tinha sistema de GPS, o que achei estranho. Rasguei a página “este diário pertence a” do livro vermelho de couro e comecei a escrever direções inversas, como uma trilha de migalhas de pão, anotando para onde eu ia para não me perder.
Depois de algumas curvas sortudas e arbitrárias, cheguei a uma estrada mais movimentada. Pelo menos tinha encontrado a civilização de novo e poderia pedir ajuda se precisasse. Embora eu não tivesse certeza se queria lidar com a possibilidade de ser reconhecida como aquela guru de autoajuda que havia desaparecido. Então continuei até encontrar a rodovia.
Quando finalmente cheguei lá, descobri que estava a cerca de trinta milhas de casa. Não contando desde a rodovia, mas incluindo a zona onde eu estava.
Eu supunha que estava a milhares de milhas de casa, em algum lugar remoto. Saber que estive a apenas trinta milhas de casa o tempo todo me fez desejar a liberdade que eu achava ter desistido.
Eu estava ouvindo um dos CDs do Oriente Médio. A música não me acalmava tanto quanto me fazia querer dar meia-volta, mas não dei. Havia uma pequena parte gritando dentro de mim que ainda queria ser livre. Finalmente, não aguentei mais os tambores.
Tirei o disco, mas resisti à vontade de quebrá-lo, alguma parte da minha mente ainda acreditava que talvez quisesse ouvir de novo algum dia, quando as feridas não estivessem tão frescas. Liguei o rádio e lembrei que era Halloween.
Esperava que a data me deixasse animada.
Em vez disso, dirigindo pelo subúrbio, fiquei desconcertada com toda a entrada sensorial. As decorações. As crianças correndo fantasiadas nas festas da tarde. Fiquei estranhamente assustada com as criaturas imaginárias que em poucas horas fariam barulho na noite.
Eu não podia ir para minha casa primeiro. Era alugada, e de algum modo duvidava que alguém tivesse mantido o aluguel durante os quase seis meses em que estive desaparecida.
Enquanto dirigia pela rua cercada de magnólias onde meus pais moravam, o rádio parou de ser apenas ruído de fundo.
“Foi realizado ontem um serviço memorial para a guru de autoajuda Emily Vargas, enquanto a polícia ainda não encontrou pistas sobre seu misterioso desaparecimento. Quando contatados para comentar, a família expressou a necessidade de um fechamento e não ofereceu mais...”
Eu quase saí da estrada. Eles me apagaram.
Igual à minha irmã. Que tipo de família espera apenas seis meses para enterrar uma caixa vazia e seguir em frente?
Certamente a maioria esperaria um ano, talvez dois. Eu entendia o quanto devia ser difícil para eles perder a Katie daquele jeito, mas aquilo parecia rejeição, como se eu não tivesse mais lugar no mundo para ir.
Passei pela casa e fui para o cemitério.
Procurei os túmulos da família até achar o meu. Foi surreal e mais perturbador do que eu esperava, e não pude evitar me sentir completamente traída pela minha família por agirem tão egoisticamente, sem pensar em como aquilo poderia me fazer sentir depois do que eu tinha vivido. Como eles achavam que explicariam tudo para mim se algum dia me encontrassem?
Ainda havia flores florescendo ao redor do túmulo, a terra fresca e empilhada alta. Uma parte louca de mim queria cavar o caixão, se é que havia um. Se não havia, eu não conseguia imaginar o que eles acharam digno de enterrar.
Tentei imaginar minha família e amigos vestidos de preto, chorando pela minha suposta morte porque meus pais não aguentaram carregar a tocha por um pouco mais de tempo, e senti nojo.
Eu fiquei encarando a lápide. Emily Vargas: amiga dedicada, filha amorosa, líder inspiradora.
Minha morte estava marcada como no dia anterior, o dia do funeral.
Maldito seja!
Chutei e espalhei a pilha de terra. Que diabos dava a eles o direito de simplesmente me matar assim? Era inconveniente para eles que eu existisse e estivesse desaparecida?
Não sei se foi pelo que eles fizeram ou pela incapacidade de me manifestar por tanto tempo, mas a raiva disparou em mim como um interruptor. Era algo que eu tinha esquecido que possuía. Não sabia que podia sentir tanta raiva; não sentia isso há muito tempo.
Joguei flores e arranjos o mais longe que pude e caí de joelhos, cavando na terra, arranhando como se pudesse entrar ali. Era o oposto de ser enterrada viva. Talvez eu devesse estar lá dentro, e não aqui sob o céu aberto, com os pássaros cantando e tudo tão inocente e brilhante.
Uma vez eu tinha visto um filme sobre alguém enterrado vivo que de alguma forma escapou do caixão e arranhou até a superfície. Eles estavam enterrados em um caixão de pinho, mas ainda assim, pensaria que o peso da terra tornaria a fuga impossível. Se cavar até um caixão já era difícil, não consigo imaginar como seria cavar para fora de um.
Mesmo que meu progresso fosse insignificante, continuei cavando. Não importava o quão impossível fosse, eu tinha que entrar ali. Lembrei do kit de emergência e peguei a pá do porta-malas do carro, agradecida por ter um mestre compulsivamente preparado para qualquer contingência de viagem.
Enquanto continuava cavando com a pequena pá, fiquei preocupada que a polícia aparecesse. Certamente eles ficavam de olho nos cemitérios no Halloween. Mas ainda era início da tarde, e os arruaceiros só sairiam depois do pôr do sol. Pensei nas crianças aprontando e tropeçando na minha cova cavada, e tendo uma história de fantasmas para contar.
Finalmente cheguei ao caixão. Tive um medo momentâneo de abrir e ver meu corpo ali dentro, que eu realmente tinha morrido e não sabia disso ainda. Mas quando abri a tampa, não havia corpo, só coisas minhas. Velhos sapatilhas de balé, diários, fotografias.
Coisas que se tornaram eu na ausência de um corpo para ser enterrado.
Agora, ao ar livre, olhando para o que supostamente seria a prova da minha morte, não consegui deixar de pensar na palavra mestre. Mas eu não tinha outro nome para chamá-lo, exceto o monstro que me tomou. No fim das contas, a coisa mais monstruosa que ele fez foi me deixar ir. Especialmente considerando que todo mundo mais também me deixou ir.
Eu queria entrar no carro e voltar para ele, me jogar em sua misericórdia e esperar que pelo menos uma pessoa no mundo ainda me quisesse. Mas sabia que não faria isso. Ele me quebrou, mas foi estranhamente gentil, de um jeito que de alguma forma eu ainda era eu por dentro.
Eu não era uma casca, um zumbi oco de um ser humano, embora naquele momento, coberta de terra do cemitério praticamente da cabeça aos pés, eu parecesse um.
Por algum motivo, ele queria que eu fosse livre, e eu tinha sido treinada para obedecer. Eu podia continuar se pensasse nisso como obediência.
Peguei minhas coisas do caixão e as levei para o carro. Encontrei uma nota de vinte dólares no meu bolso, então parei no drive-thru para comprar comida. Meu mestre devia ter colocado dinheiro no bolso da calça antes de me jogá-la naquela manhã.
Pensar em como ele cuidava bem de mim me dilacerava por dentro, e tive que segurar as lágrimas porque estava em público. A moça do drive-thru me olhou estranhamente enquanto eu pagava o combo do cheeseburger.
— “Sou um zumbi,” eu disse sem ânimo. Quase ri da minha própria piada.
A lâmpada acendeu na cabeça dela quando ela olhou para suas roupas e lembrou que era Halloween. Ela devia ter uns dezessete anos, cabelo loiro com mechas cor-de-rosa, tentando um visual “Punky Brewster” meio vulgar com a roupa. Provavelmente usava isso como fantasia porque não tinha coragem de vestir assim em outro dia.
— “Ah, claro. Engraçado,” disse ela. “A maquiagem de terra parece real.”
Sorri, segurando o impulso de dizer que era terra de verdade. Comi no estacionamento, depois liguei o carro novamente. Precisava me limpar, mas sabia que não tinha casa para ir além da dos meus pais, e não estava pronta para vê-los ainda.
Não tinha estado na casa por muito tempo quando fui levada, e ainda tinha minha unidade de armazenamento. Ela guardava todas as coisas da minha casa antes delas irem para a casa, e eu tinha pago um ano adiantado porque nunca se sabe quando vai precisar de um depósito.
Não tinha certeza se o novo lugar funcionaria. Culpo minha mãe por esse nível insano de planejamento excessivo. Não tenho outra desculpa.
Minha unidade de armazenamento, como todas as do centro ultramoderno, funcionava com um teclado numérico, e eu era a única que sabia o código.
Meus dedos tremiam enquanto digitava, depois dirigi o carro para dentro, como uma garagem, e desliguei a ignição. Desde o momento em que saí pela porta, sabia que não ligaria para a polícia. Nunca contaria nada do que tinha acontecido, nem os levaria pelas estradas sinuosas até a casa que foi minha prisão.
Sentei no carro, passando pelas coisas enterradas no caixão, lendo os diários, vendo quem eu fui, ou quem eles simplificaram para caberem numa caixa, e me atingiu o quanto eles realmente não sabiam nada sobre mim.
Se foi por omissão minha ou pela falta de observação deles, nunca saberei.
Minha casa ficava a quinze milhas da dos meus pais, e era assim porque ficava na outra ponta da cidade, o mais longe que eu podia estar e ainda estar no mesmo lugar. A unidade de armazenamento ficava a apenas cinco milhas da casa deles, o que facilitava muito caminhar.
Depois que cuidei do carro e comecei a andar pelas ruas do bairro residencial, a enormidade da minha situação me atingiu. Crianças corriam pelas ruas ao meu lado, todas vestidas como abóboras, piratas e fantasmas, gritando e rindo, com as cestinhas de doces balançando nos braços enquanto os pais exaustos tentavam acompanhá-las.
Era demais. Tudo estava alto demais. Até o drive-thru tinha sido difícil. Ter um ser humano falando comigo. Ter qualquer par de olhos sobre mim que não fossem os dele... era inquietante, uma invasão. Me fazia sentir nua e exposta.
Depois de meses com ele, minha prisão tinha se tornado meu santuário, e agora que eu estava livre, o mundo era minha prisão. Não havia mais para onde correr.
Ninguém prestava muita atenção em mim enquanto eu caminhava. Tenho certeza de que parte disso era porque o sol estava se pondo atrás das árvores, e o brilho intenso da tarde tinha acabado há horas. Eu não era reconhecível como Emily. Quem me via não parecia horrorizado ou chocado. Eu estava só vestindo uma fantasia, igual a todo mundo.
Já estava escuro quando cheguei na casa dos meus pais. A varanda estava decorada com o típico cenário de Halloween: uma enorme abóbora iluminada, morcegos pendurados na varanda, um espantalho ensanguentado deitado em um fardo de feno no jardim da frente.
Eles realmente tinham simplesmente me apagado, tiveram algum tipo de surto psicótico que lhes permitiu fechar aquela porta e abrir outra. Me dar descanso e no dia seguinte distribuir doces para as crianças do bairro e fazer as coisas normais do Halloween sem precisar pensar duas vezes em mim. Era obsceno.
Eu os tinha visto quando Katie morreu. Eu sabia que era porque a única forma deles sobreviverem era se comportarem assim. Mesmo assim. Não demonstrar abertamente o luto, esconder, enterrar, apagar. Não era assim que pessoas normais se comportavam com aqueles que deveriam amar. Mesmo que aqueles que amavam fossem só uma lembrança agora.
Quando bati na porta, minha mãe gritou de trás dela:
— “Ted, pega isso!”
Ouvi algo cair e quebrar, uma sequência de xingamentos, e então a porta se abriu de repente. A irritação da minha mãe virou choque.
— “Ted!” ela gritou, como se seu grito pudesse protegê-la da filha que não morria e não sumia para sempre como uma boa garotinha.
Meu pai apareceu atrás dela na porta,
— “Donna, o que foi?”
O rosto dele ficou pálido quando me viu, olhando morbidamente como se eu tivesse rastejado para fora do túmulo.
Queria dizer que mereciam por terem enterrado alguém que nem estava morta, mas não era culpa do meu pai, não realmente. Ele só fazia o que minha mãe mandava.
Finalmente, encontrei minha voz.
— “Mãe...”
— “Você não é real,” ela disse. Não foi dito como alguém que realmente sentia falta da filha e estava feliz por ela estar em casa. Foi dito como se minha aparição na porta dela tivesse ferrado com o plano de 12 passos dela para negar que eu alguma vez existi. Esse era o jeito da família Vargas.
Talvez eu devesse ter ido para outro lugar.
Mas era uma vingança perversa, e eu não queria encenar essa cena mórbida com alguém que não merecesse.
— “Eu sou real, mãe.”
— “Mas não te enterramos. Você está coberta de terra.”
Meu pai ficou atrás da minha mãe, com as mãos nos ombros dela, segurando-a como se controlasse tudo naquela casa.
— “Não, vocês não me enterraram. Não pensaram que talvez eu não estivesse morta, ou isso não era conveniente para vocês?”
Eu entendia que eles devem ter sofrido quando pensaram que tinham me perdido. As noites sem dormir, o medo pela minha segurança. Mas isso não mudava o fato de que eles me enterraram para facilitar a vida deles, para que pudessem seguir adiante quando eu não tive esse luxo.
Então as lágrimas começaram. Não as minhas. Eu tinha quase certeza de que não tinha mais lágrimas para chorar. Eu tinha usado minha reserva para a vida inteira, e a partir de agora meus soluços seriam verbais, não úmidos. Não, eram as lágrimas da minha mãe. Eu estava ferindo os sentimentos dela.
— “Como você pode dizer uma coisa tão vil para mim? Ficamos preocupados. Onde você esteve? O que aconteceu com você?”
Agora era a vez de me acusar. Eu ainda não tinha sido convidada para entrar na casa. Ainda estava na varanda, perto de uma enorme abóbora de plástico iluminada com um sorriso bobo no rosto. Um grupo de crianças de “doces ou travessuras” me interrompeu para cantar:
— “Doces ou travessuras!” eles cantaram, com as sacolas estendidas como pequenos mendigos. Uma das meninas estava fantasiada de bruxa. Ela conseguiu tirar um pouco da maquiagem verde do rosto, e o calombo no nariz estava quase caindo.
Minha mãe me agarrou pelo braço e me puxou para dentro antes de dar doces para as crianças e mandá-las embora. Ela fechou a porta e se virou para mim.
Ela parecia ridícula com o roupão rosa e chinelos porque o Halloween era o único dia do ano que ela podia ser uma desleixada. Ela segurava a tigela tão forte que pensei que o vidro iria estourar e os doces voariam pelo chão feito um piñata. As mãos dela estavam branquinhas de tanto apertar, e o rosto combinava com as mãos. E ainda assim... ela estava brava, não com medo.
— “Onde você esteve?” Ela falou como se eu tivesse matado aula ou algo assim. Como se eu pudesse sumir por meses sem avisar para um passeio de alegria e depois voltar parecendo do jeito que eu estava só para causar.
Abri a boca para responder, mas fechei de novo. Agora que eu estava de volta, todos iam querer saber. A polícia ia querer uma declaração, a mídia, todos os meus amigos e família. Eles achavam que tinham direito de saber. Eu tinha sumido, jogado a vida deles em uma espiral descendente, e agora devia a eles pelo menos alguma coisa. Pelo menos a versão mais básica, digna de filme de TV.
Mas não consegui me obrigar a falar. Ser forçada a contar o que tinha acontecido era como um estupro, outra violação e outra escolha que não era livre. Eu tinha exposto cada centímetro do meu corpo e alma a um homem por meses, até que a força virou voluntária. Eu não faria isso de novo, só que de outra forma.
Além disso, achei razoável pensar que, uma vez que você enterra alguém, você abre mão do direito de ouvir a história dessa pessoa. Eu não ia perdoá-los tão fácil.
"Eu não posso falar sobre isso", eu disse. Minha voz tremia.
Tenho certeza de que eles pensaram que era trauma, mas era raiva.
Minha mãe assentiu com a cabeça em sinal de compreensão; meu pai ainda não tinha dito uma palavra para mim. Ah, ele me amava, do jeito dele. Ele só não era bom em demonstrar isso.
"Eu preciso me limpar," eu disse. Depois de horas com sujeira grudada em mim, eu estava cada vez menos suportável.
"Você pode usar o quarto de hóspedes e o banheiro, e vestir algumas das minhas roupas. Vou preparar algo para você comer," minha mãe disse.
Eu queria ter trazido as roupas do Mercedes, mas não queria nenhuma evidência que pudesse ajudar a polícia a encontrar meu captor. Era irracional.
Eu deveria querer que ele fosse trancado para sempre pelo que tinha feito comigo — mas não queria. A ideia de vê-lo preso em uma cela me dava náusea.
Passei primeiro no armário da minha mãe e peguei uma camiseta e um jeans no meu tamanho — que eram seis números menores que os dela agora. Mas, como a maioria das mulheres, ela mantinha a esperança viva de um dia voltar a caber no jeans magro.
O quarto de hóspedes tinha sido meu quarto. Eu me perguntei quanto tempo depois do meu desaparecimento levou para que eles começassem o processo de me apagar: embalar minhas coisas e redecorar o quarto.
A última vez que estive nesse quarto foi pouco mais de um ano atrás. Naquele tempo, ele permanecia intocado desde a minha infância, como se meus pais esperassem que um dia eu envelhecesse ao contrário e precisassem dele novamente.
Havia bonecas Barbie e brinquedos, além de esmaltes e pôsteres de astros do rock da época — itens de um quarto que ia da infância à adolescência.
Tinha se tornado uma espécie de santuário estranho, para me manter ali, mesmo depois que eu me libertara da gaiola e tinha ido para a faculdade e criado minha própria vida.
Agora, tudo aquilo tinha desaparecido. Me perguntei se tinham feito um enorme bazar de garagem, ou se estava tudo em algum depósito, ou no sótão — fora da vista, fora da mente. Agora o quarto parecia uma pousada de interior: móveis de vime brancos e um carpete lavanda suave.
Havia uma colcha branca de crochê delicado e uma borda de glicínias nas paredes. A metade inferior da parede era lavanda clara com listras brancas. Um abajur antigo e um despertador à moda antiga ficavam no criado-mudo.
Não havia nenhum vestígio de que eu um dia estivera ali — como se fossem eles que tivessem um crime a esconder.
Tirei meus sapatos na porta para não sujar o quarto. O banheiro tinha o mesmo sentimento oco de “quarto de visitas”. Assim como o quarto, era quente e aconchegante, mas parecia tirado de uma revista, não como se alguém de fato vivesse ali.
Se eu não encontrasse um amigo com quem ficar até recuperar minhas coisas e me reorganizar, eu estaria presa naquele lugar — quente, mas estéril.
Não havia traço algum do banheiro da minha infância. Antes era verde-musgo, cheio de plantas e papel de parede com heras subindo aleatoriamente pelas paredes. O linóleo tinha sido retirado e um novo piso de azulejos fora colocado. A cortina do chuveiro era transparente.
Tirei as roupas sujas e liguei o chuveiro. Depois do primeiro dia, ele tinha me depilado, e ficou claro que qualquer sinal de pelos faria com que eu voltasse para a cela ruim. A promessa de três semanas lá pairava sobre mim como uma sentença de morte.
Uma noite, eu tinha ficado com os pelos crescendo. Ele quase me levou de volta à cela, mas eu implorei para que assistisse à gravação e visse que eu o havia obedecido.
Deve ter assistido, porque quando voltou, apenas assentiu como se estivesse tudo bem.
Debaixo do chuveiro agora, com a água caindo sobre mim, eu podia sentir os pelos crescendo. Seria normal — esperado até — deixá-los ali, deixá-los crescer, como uma espécie de segredo arcano e invisível, uma prova da minha liberdade.
Mas eu não consegui. Em vez disso, peguei um barbeador e me depilei, sabendo que nunca mais deixaria aquilo crescer — mesmo que ninguém soubesse, e mesmo que ninguém soubesse o porquê.
Depois de estar limpa, depilada, com o cabelo lavado com um xampu com cheiro de manga, encostei minha testa na parede e chorei.
Sim. Eu ainda conseguia.
Lá na entrada, eu havia me controlado. Tinha me forçado a não estremecer ao ouvir a voz da minha mãe — aquela voz que arranhava como unha em quadro-negro. E, pela primeira vez, o silêncio do meu pai tinha sido bem-vindo.
Me perguntei se algum dia me acostumaria a ouvir vozes humanas que não fossem a minha. Eu tinha ouvido vozes humanas em CDs que ele me dava, mas eram vozes cantando.
Cantar sempre pareceu desconectado da realidade, já que, fora de musicais, ninguém simplesmente começa a cantar do nada.
Saí do chuveiro, me vesti e fui sentar na cama estranha. Provavelmente o mesmo colchão de sempre, mas quem saberia? Apesar da fome, fiquei ali até minha mãe bater à porta.
“Querida, preparei algo para você comer. Venha até a cozinha.”
Ela tinha mudado de tom, e agora estava preparada para lidar com minha existência de novo.
Quando cheguei na cozinha, precisei conter um grito. Tenho certeza de que, para ela, era algo lógico, algo que pensava que me confortaria. Mas ela não sabia — ela não podia saber — que aquilo nunca mais me confortaria novamente.
“Emmie?” Meu apelido de infância. “Querida, fiz canja de galinha. Sempre te fazia sentir melhor antes.”
Antes. Não agora. E nunca mais.
Como se explica uma reação fóbica inexplicável a canja?
“Desculpa, eu não consigo comer isso,” eu disse.
Era como se o castigo dele me seguisse, e eu me perguntava o que eu tinha feito para desagradá-lo.
Racionalmente, eu sabia que minha mãe só estava fazendo o que fazia sentido para ela — o que ela sempre fazia.
A única cura alimentar que sempre funcionara antes.
Infelizmente, agora essa comida era uma lâmina, não um curativo. E quanto mais cortava, menos ajudava a sarar.
“Por que diabos não?”
Eu sabia que ela estava tentando acreditar que eu estava sendo difícil.
Ela ainda se agarrava à esperança cada vez menor de que eu não tinha sido horrivelmente torturada — de que, em vez disso, eu tinha saído irresponsavelmente em uma viagem, ou tido uma crise tardia de quarto de vida.
“Eu não posso falar sobre isso,” eu disse, “só não consigo comer isso.”
Ela começou a abrir a boca de novo, mas meu pai interveio, numa daquelas raras e milagrosas ocasiões em que ele não a deixa fazer tudo do jeito dela.
“Donna, acho que se a Emmie não quer canja, ela pode comer outra coisa. Temos um pouco de espaguete sobrando.”
“Isso seria ótimo, pai.”
Eu fiquei aliviada.
A última coisa que eu precisava era uma discussão com minha mãe porque eu não conseguia me encaixar na imagem de alguém desesperadamente grata por uma tigela de canja, ou na de uma adolescente rebelde.
Minha mãe acendeu um cigarro e se sentou em frente à televisão.
Canja era todo o repertório dela. Acho que, estando na cela, eu romantizei demais a ideia.
Quando você é prisioneira de alguém, a ideia de “mãe” se torna idealizada.
Todo o comportamento neurótico e irritante é varrido para debaixo do tapete diante daquela necessidade de apenas estar segura.
Segui meu pai até a cozinha, sem vontade de lidar com ela.
Eu não estava prestes a explicar para eles o problema com a sopa.
Primeiro porque eu não tinha ideia de como resumir aquilo em uma versão segura para pais.
E segundo, mesmo que eu conseguisse, eles iriam suspeitar do que tinha acontecido — e eu não conseguia lidar com a ideia de que meus pais suspeitassem, mesmo que vagamente, das coisas que tinham ocorrido entre mim e meu mestre.
Aquilo era privado.
Meu pai se ocupou na cozinha, tirando o espaguete da geladeira e colocando no prato para mim.
“Quer pão de alho?”
“Sim.”
Peguei um pouco de chá gelado da geladeira.
“Você está bem?” ele perguntou. Ele não olhou para mim.
Eu ouvi a falha na voz dele. Se ele chorasse, não haveria esperança para nenhum de nós.
“Estou bem,” eu disse.
Não era verdade — e eu não conseguia exatamente explicar que a maior razão para essa mentira era o fato de eu estar livre.
Eu não achava que ele tinha o tipo certo de fiação mental para entender isso.
Ele apenas assentiu.
“Sua mãe estava preocupada. Nós dois estávamos. Ela pode estar agindo um pouco estranha, mas ela só não sabe como processar certas coisas.”
“Eu sei.”
E eu sabia mesmo. A tragédia dos meus pais era que nenhum dos dois era uma pessoa ruim.
Eles sempre tinham me amado, a mim e à minha irmã. Eles só não sabiam lidar com certas situações.
Embora eu suspeitasse que a maior parte da incapacidade de lidar vinha do lado da minha mãe.
Quando o micro-ondas apitou, eu peguei o prato e devorei como uma mulher faminta. Era minha primeira refeição de verdade do dia. Eu não contava fast food, e nem tinha tomado café da manhã.
Meu pai ficou na cozinha mais alguns minutos, me observando.
Era óbvio que ele queria dizer algo mais — e eu sabia o que era.
Ele queria saber qual versão da realidade era verdadeira.
Se eu tinha sido prisioneira de alguém, para que ele pudesse ficar arrasado — ou se eu simplesmente tinha fugido, para que ele pudesse ficar com raiva.
Mas ele permaneceu estoico como sempre.
Com a sujeira que me cobria, alguém poderia supor algo próximo do que realmente aconteceu.
Mas, se eu tivesse tido um colapso mental e fugido, apenas para voltar e descobrir uma cova com meu nome nela, o resultado teria sido o mesmo.
Eles estavam melhor sem saber.
Melhor que ficassem com raiva.
A campainha tocou de novo. Mais crianças. Coloquei o prato vazio na pia e fui até a porta.
Eu queria fazer algo normal.
Mesmo que meu coração não estivesse nisso, queria participar de alguma atividade banal, como dar doces a crianças aleatórias da vizinhança vestidas de fantasias.
Minha mãe já estava no caminho até a entrada quando a parei, peguei a tigela de doces da mão dela e abri a porta.
Mas não eram rostinhos angelicais de pequenas princesas e duendes em miniatura que me aguardavam.
Eu achava que tinha sido discreta, que ninguém me reconheceria — mas eu estava errada.
A tigela de vidro se estilhaçou na varanda, e os doces voaram.
Uma multidão de jornalistas tinha se reunido no meu gramado, com luzes fortes, câmeras e microfones.
Alguns com bloquinhos de anotações, rabiscando freneticamente.
Talvez anotando meu estado físico, minhas expressões faciais, se eu parecia machucada, se tinha perdido ou ganhado peso.
Eu semicerrei os olhos diante daquele mar de rostos ávidos — pessoas para quem meu trauma equivalia ao salário do mês.
Ouvi o clique das câmeras.
Vi as filmadoras apontadas para mim e me perguntei se ele estaria assistindo ao noticiário, lá do seu forte.
Apenas mais um pedaço de vigilância em vídeo.
Apenas mais uma forma de me espionar.
“Srta. Vargas.”
Não era uma única voz, mas várias, se fundindo, rodando em loop.
“Por que não foi à polícia?”
“Você foi sequestrada? O criminoso ainda está solto?”
“Emily...”
“Srta. Vargas, você foi mantida contra sua vontade?”
“O que aconteceu?”
“Podemos ter uma declaração?”
“Srta. Vargas...”
Fechei a porta e tranquei.
O pesadelo tinha começado.
Deixei minha família lidar com a mídia e com as pessoas aleatórias que continuavam aparecendo, insistindo que éramos os melhores amigos e que precisavam ver como eu estava — quando, na verdade, a maioria deles teve o impacto mais fugaz e periférico na minha vida.
Eles só queriam bisbilhotar.
Essas pessoas aumentavam nossa relação para poder assistir, com uma fascinação mórbida, ao desmoronamento de uma tal Emily Vargas.
Eu não tinha escolha a não ser falar com a polícia.
Já havia decidido que não iria denunciá-lo.
A ideia de ver o homem que eu chamava de mestre preso era mais angustiante pra mim do que qualquer outra coisa que eu tivesse vivido.
Eu teria adorado me recusar a falar,
mas aí estaria obstruindo a justiça.
Justiça.
Como se mais alguém, além de mim, tivesse alguma aposta nessa corrida.
Foi um crime contra mim, não contra a polícia, nem contra o Estado, nem contra o país.
Me obrigar a cooperar era só mais um tipo de escravidão.
Então eu fiz o que era necessário.
Eu menti.
Disse que nunca soube exatamente onde estava,
mas que um dia ele me amarrou e me vendou,
dirigiu por várias horas,
e depois me largou na beira de uma estrada.
Contei que, quando consegui me soltar das cordas e tirar a venda, ele já estava muito longe.
Falei que descobri que estava em Nebraska, pegando caronas com várias pessoas até finalmente chegar em casa.
Claro que tudo isso foi anunciado no noticiário da noite, junto com um apelo para que qualquer pessoa que tivesse dado carona a alguém com a minha descrição ligasse com qualquer informação adicional. Algumas pessoas ligaram.
Se eram trotes querendo seus quinze minutos de fama,
ou se realmente tinham pego uma caroneira e pensaram que era eu,
foi o suficiente para a investigação estagnar.
Não havia informações suficientes para encontrar nada.
Eu queimei as roupas e os sapatos que usava, fingindo ingenuidade e dizendo que era só porque era demais pra mim, e que precisava me livrar das lembranças.
Ninguém sabia do depósito.
O contrato de um ano estava prestes a vencer,
e eu teria que pagar mais um ano ou passar para o plano mensal em breve.
Me perguntava por quanto tempo eu estaria disposta a pagar para proteger meu torturador da punição —
e se isso também não era só mais uma forma dele me machucar.
Assim que o assunto com a polícia terminou,
entrei num padrão apático de ver televisão.
Alguns amigos passaram lá,
mas eu não tinha energia nem vontade de pedir para ficar na casa de ninguém.
Isso pareceria demais com seguir em frente com a minha vida.
E a minha vida tinha terminado com ele.
Tudo ainda era barulhento demais.
Estímulos demais de fontes demais.
Eu sentia falta daquele quarto calmo, com os suaves batimentos de tambor do Oriente Médio que reverberavam pelo meu corpo enquanto o chicote descia.
De sentir o peso dele sobre mim.
A boca dele na minha.
Eu tinha esquecido o quão frenético era o mundo.
Como tudo se movia de forma desesperadamente rápida, cada pessoa correndo contra seu próprio relógio.
Eu estava me deixando ir, não cuidando mais da aparência.
Sabia que minha carreira tinha acabado — permanentemente.
Como eu poderia motivar ou empoderar alguém depois disso?
O que mais restava pra mim?
Estranhamente, apesar de não me importar mais com o cabelo ou maquiagem, e usar uma camiseta velha e shorts quase todos os dias,
eu continuava a me depilar compulsivamente, deixando minha vagina totalmente lisa sempre que tomava banho.
Era minha última conexão com o meu mestre.
À noite, minha mão deslizava entre as pernas, me tocando até o orgasmo.
Não sei se eu estava tentando voltar pra ele ou se só usava aquele prazer antigo como cura pra insônia.
Quando eu dormia, ele estava sempre lá.
Até os sonhos da cela ruim — que a maioria consideraria pesadelos — tinham um certo tipo de conforto estranho, porque eu sabia que ele estava me observando e não muito longe.
Ele viria me buscar.
Acordava por volta das nove da manhã e me forçava a voltar a dormir até que estivesse me levantando às duas ou três da tarde, só pra ficar inconsciente o maior tempo possível e não ter que encarar a realidade fria que a liberdade tinha se mostrado ser.
Três semanas se passaram assim, até minha mãe tomar uma atitude.
“Marquei uma consulta com a doutora Blake,” ela disse uma manhã.
“Você sabe o quanto ela me ajudou depois que sua irmã morreu.”
Eu olhava pra televisão, assistindo à reprise de um programa de auditório horrível.
Não tirei os olhos da tela porque sabia que não conseguiria esconder o desprezo.
Claro que a Dra. Blake tinha ajudado ela,
o que explicava por que ela nunca mais mencionou que eu tinha uma irmã desde a morte dela.
Até esse exato momento.
“Você me ouviu?”
“Sim, eu ouvi.”
“Bom, você vai?”
“Ah, então agora você tá perguntando?”
Ela suspirou alto e começou a bater o pé no chão.
Revirei os olhos.
Eu não queria mais drama.
Eu estava torcendo pra simplesmente me encolher e morrer,
mas como isso não estava acontecendo, eu ia ter que fazer alguma coisa.
Se a Dra. Blake não pudesse ajudar, talvez pelo menos pudesse me deixar dopada.
Era o segundo melhor cenário.
“Tá bom, mãe. Eu vou.”
O consultório da terapeuta era exatamente como eu lembrava.
Ficava na cidade, num prédio alto no quinto andar.
Música de elevador direto dos anos cinquenta tocava sem parar, as mesmas poucas músicas, repetidamente.
Era como uma colagem psicótica e dopada de Prozac.
Se você não estivesse louca ao entrar, com certeza sairia assim.
Me sentei numa das cadeiras de couro azul-marinho e folheei uma revista.
Tive que convencer minha mãe a me deixar dirigir.
Se eu fosse suicida, já teria feito isso.
Não tinha esse desejo urgente de jogar o carro no tráfego contrário.
Na real, eu nem sabia como alguém podia se matar se já estava morta por dentro.
Li aquele mesmo artigo que aparece em toda revista de mulher descolada sobre segredos sexuais “chocantes”.
Talvez eu estivesse cínica, mas todos os artigos tinham as mesmas dicas, só que em ordens diferentes.
E longe de serem chocantes, ou mesmo um pouco safadas,
eram comportamentos domesticados — produto de uma sexualidade atrofiada —
e não de algo escrito por uma mulher vibrante e sexualmente livre.
Havia outra pessoa na sala,
um homem calvo de meia-idade esperando para ver o outro médico do consultório.
Ele murmurava sozinho, e quando escutei melhor, percebi que ele estava contando.
Não fazia ideia do que ele estava contando,
mas sabia que ele teria algum tipo de surto se o tapete continuasse torto.
Ele não tirava os olhos daquilo desde que cheguei.
De vez em quando, estendia a mão como se fosse endireitar.
Mas então a puxava de volta rapidamente.
Me perguntei se ele usava uma daquelas coleiras discretas de choque, de modificação comportamental.
Antes que eu pudesse observar mais manias obsessivas, chamaram meu nome,
e eu deixei o inferno da música de elevador para entrar no consultório da Dra. Blake.
Ela estava ainda mais velha do que eu lembrava da época da morte da minha irmã.
Acho que ela não planejava se aposentar.
Ia ir direto daquele escritório para o túmulo — e Deus ajude quem tentasse impedir.
“É bom ver você de novo, Emily.”
Ela disse isso sem parecer perceber o que estava dizendo.
Me ver de novo praticamente garantia que eu estava quebrada de alguma forma.
Me impressionava que alguém tão treinado em comportamento humano não enxergasse o próprio.
Mas sorri educadamente e me sentei.
O sorriso exigiu mais energia do que eu esperava,
e fiquei grata de ter um sofá pra desabar.
“Entendo que você está tendo dificuldades pra lidar com o que aconteceu.”
Olhei pra ela, sem expressão.
Era aqui que eu deveria derramar minha alma?
Só porque era o esperado?
“Quer falar sobre isso?” ela perguntou, puxando um gravador da gaveta da mesa.
“Eu prefiro que você não grave nossas sessões.”
Eu estava inquieta por vários motivos. Parte dele era meu status de semi-celebridade. Gravações eram mais comprometedores do que anotações. E também porque tudo ficaria real demais.
Ela parecia prestes a protestar, mas então os lábios se apertaram numa linha firme e ela assentiu, devolvendo o gravador para a mesa antes de pegar um bloco de anotações amarelo.
“Muito bem, então.”
Ela ergueu uma sobrancelha, como se perguntasse se eu agora reclamaria de ela fazer anotações.
Eu pretendia sentar no sofá, mas deitei nele, puxando os pés para perto do corpo. Por fora, eu tenho certeza de que esse comportamento indicava algum tipo de disposição minha em me render ao processo terapêutico, mas, na verdade, era uma forma de me esconder: deitada, eu podia olhar para o teto sem encará-la.
“Vamos começar?” ela perguntou.
“Na verdade, eu pensei que talvez você pudesse me dar algo; passar uma receita. Valium, Zoloft, Prozac, qualquer coisa.” Queria algo para me anestesiar, borrar um pouco as bordas da realidade, mas não disse isso.
“Emily, você já sabe que não funciono assim.”
Então eu teria de encontrar alguém que funcionasse. Com toda a polêmica sobre terapeutas que distribuem remédios como traficantes legais e politicamente corretos, certamente eu acharia quem me desse minha dose de normalidade.
Ela ficou ali, pacientemente, caneta em riste, atenção total. Eu permaneci deitada por vários minutos, o silêncio se estendendo entre nós. Ficávamos à espera: eu, esperando que ela falasse; ela, esperando que eu falasse. Era um duelo de vontades. Olhava de vez em quando para o relógio na parede, enquanto os minutos corriam muito mais devagar do que já correram, até mesmo na cela ruim.
Pensei se conseguiria gastar a sessão inteira assim: uma hora de silêncio abençoado. Antes, a perspectiva seria profundamente desconfortável para mim. Eu não teria resistido ao impulso — à necessidade — de preencher aquele vazio com palavras.
Por fim, falei, mas não foi por incômodo com o silêncio. Não sei dizer o que foi: o ambiente do consultório, a paciência dela, o sofá confortável, o quase hipnótico tic-tac do relógio. Era como se uma transe me possuísse, uma espécie de possessão psicológica que me impelia a derramar, se não segredos, pelo menos meus sentimentos sobre tudo.
“Eu não me encaixo mais,” comecei. “Não sei para onde ir a partir daqui. Há minha vida de antes e minha vida de agora, e não há ponte entre as duas. Não há como voltar a ser quem eu era.”
“E como era sua vida quando você estava onde estava?” Ela evitava palavras como cativa ou aprisionada.
Encostei o rosto no travesseiro e olhei para o teto. Mais cinco minutos devem ter se passado antes que eu falasse: “Não posso te contar sobre isso. É algo privado.”
“O que então você pode me contar?”
Dei de ombros.
Ela decidiu partir para um método mais direto de pergunta e resposta, algo que exigisse menos explicação da minha parte.
“Quantas pessoas teve?”
“Uma.”
“Homem ou mulher?”
“Homem.”
“Você quer voltar para ele.”
Não foi uma pergunta. Eu me sentei de supetão, fitando-a. Apesar dos entendimentos sobre a relação vítima/torturador, a maioria das pessoas se nega a aceitar que alguém queira voltar depois de ser liberto.
“Sim,” respondi.
“Emily, você tem mestrado em psicologia. Sabe o que é isso. Sabe que não é real.”
Seria verdade? Uma coisa é discorrer sobre estranhos sem nome, outra é vivenciar. Difícil imaginar que, na minha posição, a Dra. Blake enxergaria tudo do mesmo jeito que via naquele instante.
Para que se esforçar em manter tudo igual? As pessoas mudam. Importa o catalisador? Dei de ombros outra vez.
“Pode me dizer algo sobre o que aconteceu enquanto estava com ele?”
Balancei a cabeça. Não, eu não podia falar sobre aquilo. Parecia traição. E eu odiava que ela soubesse que era esse o motivo de eu não falar. Sentia a piedade dela de longe.
“Pobre Emily confusa.”
“Gostaria muito de tomar um remédio,” confessei.
Já se aproximava o fim da sessão e nenhum progresso tinha sido feito. Por um breve instante, imaginei-me deitada numa banheira cheia de água morna, enquanto uma paz branda me invadia, deixando o banho cor-de-rosa como num Valentine’s Day, pelo meu sangue. A voz dela cortou a fantasia.
“Olha só. Tenho um dever de casa para você. Quero que mantenha um diário, durante a próxima semana, com tudo que achar que consegue compartilhar, e discutiremos isso na próxima sessão. Se fizer isso por mim, aí conversaremos sobre prescrever algo.”
Chantagem.
Era o equivalente socialmente aprovado a “me dê prazer, que eu te dou o remédio bom”. Só que eu apenas assenti.
Ela rabiscava freneticamente no bloco enquanto eu me levantava para sair. Nem imaginava que tipo de percepções brilhantes ela teria extraído da minha psique em tão pouco tempo. Também não tinha certeza de que queria saber.
Como tinha o carro, dirigi até a livraria e comprei um diário. Que se dane, pensei — transcreveria, lá no Mercedes, as entradas menos reveladoras e mais ‘seguros’ do meu verdadeiro caderno. Tinha emoção e trauma de sobra escritos ali.
Recusei-me imediatamente a entregar meu diário original. Além de ser íntimo demais, ela poderia repassá-lo à polícia como prova. Isso seria mais uma violação do que eu suportaria. Eu não precisava de mais estranhos bisbilhotando as partes mais privadas de mim.
Quando cheguei ao depósito, o sol já estava se pondo. Fiquei no Mercedes, chorando, enquanto copiava as passagens para o novo diário, ouvindo a música que sentia falta fazia semanas.
Não sei quanto tempo perdi ali, sentada no carro. Apesar de o depósito não ficar na via principal, eu sabia que corria risco ao ficar com a porta basculante aberta e o carro ligado para tocar música.
Copiei várias seções para o diário recém-comprado. Ficou bem censurado, mas, comparado à sessão de hoje, eu estava derramando meu coração.
Seria o bastante para conseguir medicação — e então, mudaria de médico.
Eu não precisava de alguém remexendo na minha cabeça, desmontando-me pedaço por pedaço para depois remontar do jeito que eles achavam que eu deveria ser.
Ao chegar em casa, enfiei o diário censurado debaixo do colchão do quarto de hóspedes.
O jantar estava pronto na mesa, e minha mãe não disse nada ao me servir.
— “Por que diabos você não ligou? A consulta era de uma hora. Você não achou que eu podia precisar do carro para algo?”
Ou não.
Eu não disse nada. Peguei o prato e fui para o quarto de hóspedes, fechando a porta.
Liguei a TV no controle remoto e encostei-me de volta na cabeceira de vime.
Sabia que estava agindo como uma adolescente de doze anos, mas aprendi pela experiência que era melhor manter distância da minha mãe quando ela entrava nesse modo.
Tirei o diário de debaixo da cama outra vez. Era marrom-claro, com nós celtas na capa. Tracei o dedo no desenho delicado, enquanto, distraidamente, metia na boca colheradas de um frango gratinado. Já haviam trinta páginas preenchidas — com certeza era material suficiente para o dever de casa e para conseguir os remédios.
“I Love Lucy” estava passando em volume baixo ao fundo. As risadas enlatadas se filtravam até mim, deitada na cama.
Por um momento, pensei em denunciá-lo.
E se?
Eu ainda estava com raiva dele por me ter descartado. Ele não deveria ser punido por isso? Mesmo que parecesse que ele já estava sendo punido por algo bem diferente? Ele saberia o verdadeiro motivo.
Tentei imaginar a expressão em seu rosto quando as viaturas da polícia entrassem na sua garagem. Ele sentiria remorso? Vergonha? Choque? Aceitação? Se adaptaria à prisão tão bem quanto eu me adaptei?
Me perguntei de novo se ele acreditava que me libertar tinha sido uma crueldade ou uma bondade, se achava que tinha feito algo errado ao me levar. Será que ele se arrependia de ter me deixado ir? Será que pensava em mim, sonhava comigo, como eu fazia com ele?
Certamente minha obsessão não podia agora ser maior que a dele.
E eu estaria em apuros por mentir e obstruir a justiça?
Alguém me trancaria numa cela, mesmo que por pouco tempo, achando que tudo bem porque eu não contei a verdade ao braço todo-poderoso da lei?
Ou eu poderia usar a carta do medo: Ele me aterrorizou demais para que eu pudesse falar. Tive medo que ele viesse me buscar de novo.
Eu não sabia.
Mas embora a fantasia da vingança fosse tentadora por um momento, ela rapidamente se dissipou, substituída pela mesma sensação que sempre me invadia ao pensar nele como algo menos que onipotente: ansiedade.
No dia seguinte, tudo foi diferente. Não sei se foi por ter visto a Dra. Blake, ou se finalmente a realidade da minha liberdade havia se instalado, mas comecei a pôr as coisas em ordem.
Procurei um apartamento, pequeno. Eu tinha dinheiro suficiente no banco para me sustentar por um ano, talvez, enquanto tentava descobrir o que fazer com o resto da minha vida.
Eu me ajustaria e ficaria bem. Encontraria meu lugar no mundo de novo, e isso seria apenas algo que eu havia experimentado — não algo que tivesse mudado o núcleo de quem eu era.
Eu podia ser curada. Passaria por todas as respostas padrão ao trauma, e no fim disso tudo, eu seria uma sobrevivente.
Eu podia ser “deslavada”. Recondicionada.
Isso podia ser feito. Eu podia ser livre dele para sempre — mentalmente, assim como fisicamente.
Não foi uma fama repentina que me deu dinheiro para cuidar de mim, mas sim extrema responsabilidade com minhas finanças. Sempre fui poupadora, não gastadora. Era parte do que tornava esse passo assustador.
Mas eu precisava agir. Caso contrário, iria murchar e morrer na casa dos meus pais, no quarto esquisito com os móveis de vime branco e a borda de papel de parede com glicínias pingando do teto.
Eu era covarde demais para me matar, embora tivesse fantasias passageiras.
Meu mestre me havia descartado com totalidade, e minha vida com ele tinha acabado.
A única coisa que restava era agir.
Aos olhos de qualquer espectador, eu era uma pequena soldada corajosa. Emily Vargas, a inspiração para mulheres sequestradas em todos os lugares. Que força, se reerguendo tão rapidamente após todos os horrores que deve ter sofrido nas mãos de um lunático.
Já haviam me convidado para alguns talk shows para compartilhar minha história, mas eu recusei. Ninguém teria uma exclusiva.
Ninguém teria a história, ponto.
Tudo parecia normal por fora.
Mas ninguém estava lá para me ouvir acordar chorando no meio da noite, procurando o conforto do corpo de um homem que não estava lá.
Eu só sonhava com ele. Mais nada.
Parecia que não havia nada que eu pudesse fazer para purgá-lo dos cantos mais escuros da minha mente.
O Dia de Ação de Graças chegou. Quase quatro semanas longe dele e eu ainda não conseguia nem começar a não querê-lo.
Fui para a casa dos meus pais para o tradicional jantar de peru. Sempre era um grande evento. Meus primos, tios e tias, meus pais. Meus avós — o par restante do lado do meu pai. E claro, amigos — incluindo Bobby White, o garoto que cresceu duas casas abaixo da minha e sempre teve uma queda por mim.
Antes de ser levada, eu finalmente tinha aceitado um encontro com ele. Só para ver como seria, como ele disse.
Ele estava sentado na mesa principal, direto na minha frente, encarando-me por cima do enorme peru reluzente que parecia ter saído de uma revista de culinária.
Baixei os olhos para o meu prato.
Não aguentava ver a mistura de pena e decepção egoísta por sua única chance comigo provavelmente estar perdida para sempre.
Minha mãe, como sempre, era a porta-voz do Dia de Ação de Graças. Vovô era o patriarca, mas tanto ele quanto o papai eram homens de poucas palavras — e minha mãe nunca teve esse problema. Como eu.
Ou como eu era.
Fiquei encarando o prato, traçando o padrão de filigrana nas bordas com o dedo, tentando não ouvir quando ela disse de que era grata: meu retorno seguro.
Vários membros da família exclamaram sua concordância, e eu nunca me senti tão distante deles.
Quem eram essas pessoas?
Eu era uma estranha aqui.
Compartilhávamos sangue, mas pouco mais — e eu me perguntava por que continuávamos nos reunindo todos os anos assim.
Como uma zombaria bizarra da ideia de família.
O jantar passou rápido e então veio a torta de abóbora. Peguei a minha num prato de papel e fui sentar no sofá da sala.
Vários parentes tentaram conversas educadas que contornavam cuidadosamente os fatos da minha ausência.
Era como se eu tivesse passado as férias num acampamento de verão.
Quatro semanas antes, todas essas pessoas estavam vestidas de preto, indo ao meu funeral — e agora estávamos ali, como se nada tivesse acontecido.
A negação parecia se estender a toda a minha família.
A tudo que eu conhecia. Ou pensava conhecer.
Fiquei sentada com o prato apoiado nos joelhos enquanto as vozes ao redor se tornavam um grande ruído branco. Senti o sofá afundar ao meu lado, mas continuei olhando para a torta.
Se eu não reconhecesse quem quer que fosse, talvez fossem embora.
Ou pelo menos ficassem calados.
— Você tem mais chantilly que torta — disse Bobby.
Olhei de relance e o vi sentado ao meu lado, o prato de papel cuidadosamente apoiado no colo, espelhando o meu — exceto pela quantidade modesta de chantilly, como se exagerar fosse pecado mortal.
— É — eu disse, e voltei a olhar para o prato.
Tentei escapar do jantar de Ação de Graças, dizendo à minha mãe que era demais, muito cedo.
Era parcialmente verdade. Era demais, mas não achava que uma linha do tempo fizesse diferença no quadro geral.
Seria demais daqui a cinco anos também.
Eu havia sido irreversivelmente mudada, e ninguém queria aceitar isso. Nem mesmo eu.
Todos queriam acreditar que, com bastante terapia e tempo suficiente, meu mundo seria encantador outra vez.
Eu voltaria a ser a garota de ouro deles.
Mas apesar das minhas breves incursões ao mundo da fantasia, eu sabia que não era verdade.
Minha mãe insistiu que eu fosse.
Todo mundo ia se sentir mal se eu não fosse.
E não iríamos querer isso, né?
Eu estava evitando todos há semanas. Eles sentiam minha falta.
Etc. etc.
Cedi, porque com minha mãe sempre se cede, se você sabe o que é bom pra você.
Ela não deixa você tomar uma decisão.
Ela só insiste até conseguir a resposta que quer.
Me arrependi de ter cedido.
Eu me trouxe ao orgasmo com o outro.
O rosto dele estava na minha mente enquanto eu gozava, abafando um gemido. Puxei a calça de volta, os dedos trêmulos ao fechá-la. Lavei as mãos na pia. O sabonete cheirava igual ao daquela época da minha escola primária. Não encarei meu reflexo no espelho. Eu não queria ver meus olhos.
Depois de retirar a receita na farmácia, vagueei pela cidade. Deixei o carro na garagem e peguei um táxi. Antes que eu percebesse, estava em frente ao zoológico de Atlanta.
Paguei a corrida e enfiei o frasco de remédios na bolsa. Na consulta com a Dra. Blake eu tinha falado, não principalmente de depressão, mas de ansiedade — pulinhos nervosos com barulhos altos, multidões, situações sociais.
A verdade é que eu muitas vezes ficava em casa assistindo TV porque sair me deixava nervosa. Tive uma explosão de coragem por uma semana, saí da casa dos meus pais, mas isso estava chegando ao fim.
Então eu tinha um frasco com duas semanas de Xanax. Não era Valium, mas quem vai reclamar? Minha mão apertava o frasco aconchegado na bolsa, em busca de conforto, e eu entrei no zoológico.
Paréi numa pequena lanchonete e almocei comida gordurosa e frita — frango, salada de batata, feijão assado. Pratos típicos do sul. Comida de conforto.
Perambulei, observando os animais em suas jaulas. Eu não visitava um zoológico sendo adulta. Sempre me incomodou ver animais enclausurados — um voyeurismo bizarro disfarçado de diversão.
Agora eu me identificava com sua situação, e não sentia tanta pena deles quanto sentiria antes. Nenhum parecia aflito. Eu nem acreditava que eles não sabiam o que acontecia, mas ao mesmo tempo pareciam bem com aquilo. Seguros. Protegidos. Sabendo que alguém cuidava deles, que não teriam de enfrentar o mundo cruel, aquela luta feroz pela sobrevivência.
Alguns estavam deitados; outros faziam palhaçadas para o público, especialmente ursos e macacos. Eles sempre tendiam a “atuar”.
Um grupo grande de crianças em visita escolar correu até a jaula dos macacos perto de onde eu estava. Levei um susto e saí de fininho, incapaz de lidar com barulho e agitação repentina. Cada criança tinha uma bexiga colorida amarrada no pulso. Uma monitora da minha idade gritou para acalmá-los:
— “Bexigas azuis ficam com a Srta. Patti no café The Wild Planet para o almoço. Bexigas vermelhas e amarelas ficam onde estão.”
Mais crianças com bexigas verdes e a exausta Srta. Patti apareceram para a troca de turno. Eu me enfiei numa caverna artificial próxima, climatizada e com telões de vídeo. Meu pulso disparou, a ansiedade subiu. Eram só crianças, mas pareceu um encontro próximo com a morte.
Fixei os olhos num dos monitores para me distrair, a mão procurando o botão de volume. No vídeo, um grupo de membros raivosos da PETA protestava contra manter animais em cativeiro. Placas pintadas e rostos indignados enchiam a tela.
A narração começou:
“Na era moderna, alguns se preocupam com manter animais em jaulas. Embora compreensível, infelizmente, quando um animal vive longo tempo em cativeiro, é pior soltá-lo novamente: ele já não sabe mais sobreviver no selvagem. Isso vale ainda mais para quem nasceu preso, mas também para adultos acostumados conosco.”
Olhei de volta para os macacos, e um chimpanzé mostrou os dentes como quem sorri. Não soube dizer se eu estava atribuindo traços humanos ao gesto ou se ele realmente sorria. Então ele grunhiu um par de vezes e voltou a brincar com os outros.
Esperei até as crianças partirem e fui para uma área menos cheia. Fiquei numa ponte cercada por dispensadores de ração para patos — cada pacotinho por vinte e cinco centavos. Segurei o corrimão e encarei a água escura, respirando devagar.
E será sempre assim? Tanta ansiedade e agitação ao ar livre? Serei claustrofóbica em espaços abertos também? Mexi na bolsa e peguei o frasco de comprimidos. O corpo tremia enquanto eu depositava um na palma da mão. Ia colocá-lo na boca quando parei e fitando-o com estranhamento.
Então, sem razão aparente, deixei o pequeno comprimido oval cair no lago. Um pato tentou bicá-lo, mas nadou para longe. Minha mão se inclinou devagar até que todos os comprimidos caíram como se fossem pedrinhas miúdas na água.
Um bando de patos nadou até lá, bicando as pílulas que giravam e se agitavam, como irritados por terem sido enganados. Eu conhecia bem essa sensação.
Procurei um centavo no bolso e virei a manivela da máquina de ração. Patos mereciam o que queriam — e eu também. Já não me importava com a expectativa de ninguém.
Como meu mestre, eu me separara da sociedade.
"Eu já não fazia mais parte, e as velhas regras não se aplicavam. Elas só se aplicariam se eu quisesse fazer parte — e descobri que não queria. De que serviria uma vida baseada numa realidade passada? Eu não era mais a mesma mulher, e já não queria mais ser livre.
Agora, me arrependia de ter desenterrado o caixão no mês anterior. Emily Vargas deveria ter continuado enterrada.
Espalhei a comida de pato na água e fui buscar o Mercedes."
INDIGNAÇÃO
Eu agora sabia por que havia escrito as direções invertidas. Eu nunca acreditei que me perderia. Sempre soube que estava voltando. Só queria um último gosto da liberdade do outro lado, como uma noiva determinada a celebrar o último suspiro antes do dia do casamento.
Escrevi e enviei uma carta aos meus pais sabendo que eles nunca entenderiam, mas desejando de alguma forma que pudessem.
Senti uma pontada de vanglória ao imaginar que o FBI estaria remexendo em Nebraska à minha procura, se é que fariam o esforço. Tomara que, maluca ou não, minha carta fosse vista como um pedido insistente para me deixarem em paz. Eu estava errada em voltar e dar-lhes falsas esperanças.
Em minha defesa, não fiz de propósito. Acreditei, em pequenos lampejos, que havia esperança. Mas o único desejo que ardia em mim era estar de volta nos braços dele — e eu sabia que isso jamais mudaria.
Talvez a doutora pudesse me curar. Poderia ficar dopada, recondicionada num consultório onde me dissessem repetidas vezes que não era minha culpa. O problema era este: embora eu tenha sido tola ao deixar meu copo desguarnecido, nunca acreditei merecer aquilo. Sabia que ser capturada não fora minha culpa.
Nunca pensei que fosse má. Talvez ele não tenha usado palavras para me destruir daquela forma. Se tivesse falado e me culpado sem parar, talvez eu acreditasse. Mas isso não aconteceu. Eu apenas ansiava por aquela força silenciosa, por aquele poder mudo. Eu não pude me conter.
Não me importava como havia chegado a esse desejo, só importava que eu estava ali. Ele era a única coisa na minha vida que fazia sentido — e eu nem sabia o nome dele. Sabia apenas que, se me aceitasse de volta, provavelmente jamais saberia seu nome. Somente “Mestre”.
Estacionei em frente à casa e desliguei a ignição. Vestia roupas que ele me dera, segurava firme o diário e os CDs. Bati à porta e esperei.
Estaria ele em casa? Mantive a estranha convicção de que ele passava o tempo todo me vigiando pelos monitores de vídeo, como se, ao fazê-lo, também fosse meu escravo.
Era um dia bonito, uma daquelas raras tardes surpreendentemente quentes que o sul às vezes tem em dezembro.
O sol brilhava, os pássaros cantavam, uma brisa suave soprava — e ainda assim parecia sufocante. Aberto demais. Perigoso.
Finalmente, a porta se abriu.
De alguma forma imaginei que ele desmoronaria sem mim. Que se arrependeria de me libertar e ficaria feliz por me ter de volta. Mas não havia nada de despenteado ou descuidado no seu aspecto. Nenhum fio fora do lugar; ele estava bem-vestido, como sempre.
Ele me fitou com aquela frieza arrogante que, de alguma forma, não me parecera tão cortante quando eu estava do outro lado daquela porta. E de repente não tive mais certeza de ter um lugar ali.
— “Mestre, por favor…”
Ele fechou a porta e a trancou.
Bati com força por pelo menos vinte minutos, mas nada aconteceu.
Deslizei para o chão da imensa varanda e apoiei o corpo na madeira escura e pesada. Será que ele realmente se aborreceu comigo?
Ele simplesmente estava “feito” comigo? Acabou porque ele disse que acabara?
Eu sabia que devia ter voltado pro carro e ido embora. Puder interceptar a carta quando chegasse à casa dos meus pais e queimá-la. Ninguém jamais precisaria saber disso. Poderia retomar as consultas de terapia e seguir o plano de ficar “bem ali”. Recuperar-me. Sobreviver.
Fiquei furiosa por ele me recusar assim. Deveria entregá-lo à polícia se não me aceitasse de volta — mas ainda assim não conseguia.
Meus nós dos dedos sangravam. Da última vez que sangraram, eu estava implorando para ser libertada. Soltei uma gargalhada histérica. Alguns minutos se passaram, e a porta se abriu uns centímetros. Antes que eu pudesse me levantar, ela se fechou e trancou de novo. Olhei para baixo.
Estava ali um par de mimos: uma garrafa d’água, uma fralda macia, pomada e curativos para minhas mãos.
Agora eu entendia o jogo. Não via motivo para ele me ajudar se realmente havia me abandonado. Ele nunca fora tão cruel. Como sempre, a escolha cabia a mim.
Por mais doentia, distorcida ou perversa que fosse, aquela era a escolha mais livre que eu já recebera. Eu estivera completamente segura, sem depender dele — e ali estava eu, um mês depois, implorando na sua porta como um cão vadia em busca de abrigo.
Um mês no mundo lá fora e tudo que eu tinha eram horas de televisão vazia e algumas visitas ao consultório da Dra. Blake. Peguei a metade da garrafa d’água e molhei a fralda. Cerrei os dentes ao limpar a pele rasgada dos nós dos dedos. Apliquei o gel de aloe e os curativos. Bebi o resto da água e aguardei.
Relendo meu diário original — o verdadeiro — (o outro, sem menções tão íntimas, ainda estava no carro), via cada coisa que ele me fizera e cada ato a que eu me submetera para não voltar à cela ruim. Emoções, sentimentos, atos sexuais degradantes.
Eu sabia como devia reagir, mas não conseguia despertar aquelas sensações. Lendo cada cena em detalhes vívidos como se fosse erotismo, podia sentir a umidade formando entre minhas pernas.
Duas horas se passaram. Pensei em bater de novo, mas minhas mãos doíam demais. Além disso, não havia dúvida de que ele sabia que eu ainda estava lá fora. Se continuasse batendo, talvez ficasse mais tempo trancada do lado de fora.
Mantive a crença persistente de que ele abriria a porta e me deixaria entrar — que aquele era o teste final. Eu só precisava provar meu valor.
Finalmente a porta se abriu, e ele deslizou para fora uma tigela de canja de galinha, alguns biscoitos e outra garrafa de água antes de fechar a porta e trancá-la de novo. Não pude evitar o sorriso que se espalhou no meu rosto. Deus, eu tinha perdido completamente a cabeça.
Esmigalhei os biscoitos na canja e comi. Tudo parecia dar certo de novo. A sopa me confortava porque trazia esperança. Ele estava interagindo comigo.
Naquela noite, nuvens se reuniram e começou a chover. Trovoadas ribombaram, relâmpagos rasgaram o céu. O vento aumentou e jogou água da chuva na varanda.
A noite e a chuva trouxeram queda de temperatura; não estava exatamente frio, mas já não era mais confortável. Tremi e me encolhi no canto da varanda, o mais longe possível da chuva que soprava.
Olhei com desejo para o Mercedes a poucos metros, destrancado. Eu poderia entrar, ligar o aquecimento e me encolher no banco de trás até acabar o combustível. Mas não queria ficar longe dele, caso ele me deixasse entrar.
Perto da meia-noite, a porta se abriu de novo, e travesseiros e cobertores pesados foram jogados para fora.
Voltei ao canto da varanda e me enrolei nos cobertores até adormecer. De manhã, o ar trazia um novo arrepio — um clima muito mais apropriado a dezembro. Afofei ainda mais o tecido de lã, me perguntando se ele me deixaria congelar ali na varanda.
Logo, braços fortes me pegaram e me levaram para dentro de casa. Ele me sentou no sofá da sala em que estivemos naquele último dia — e saiu. Voltou poucos minutos depois com roupas limpas do armário da “cela boa”.
Segurei-as, incerta.
Ele cruzou os braços e ergueu uma sobrancelha. Hesitei por um instante. A liberdade das últimas semanas havia trazido de volta parte da minha modéstia, mas o desejo de ficar com ele, não importava o custo, superou esse muro falso que eu erguera em volta de mim mesma.
Desvesté-me da roupa antiga, ainda um pouco úmida. Senti o olhar consumido dele, como se decidisse se eu valia a pena manter — como num leilão de escravas. Se me aceitasse, poderia ser um investimento de longo prazo.
Fiquei estranhamente orgulhosa de mim mesma por ter mantido a depilação, prova de obediência mesmo à distância. Vesti a roupa nova e sentei no sofá, olhando para ele, esperando.
Finalmente, ele assinou: “Por que está aqui? Eu disse para ir embora. Eu a libertei.”
“Não quero ser libertada. Quero ficar.”
“É errado mantê-la aqui.”
“É mais errado me libertar! Você não vê o que fez comigo?”
Ele balançou a cabeça e atravessou a sala para segurar meu braço. Sua mão foi dura — muito mais áspera do que o normal, a menos que estivéssemos na masmorra e ele chicoteasse por prazer sexual.
Conduziu-me até a porta, e soube que me expulsava de vez. Se conseguisse me colocar para fora, era fim de linha. Ele me deixaria morrer na varanda, de fome ou frio, antes de me abrir a porta outra vez.
Tentei me soltar, as lágrimas escorrendo pelo rosto.
“Mestre, por favor, não faça isso.”
Ele me arrastou pelo corredor, ignorando minhas súplicas. Até que a raiva explodiu em mim — a mesma fúria visceral do cemitério, quando escavei metros de terra tentando recuperar algo perdido.
“NÃO!” me desvencilhei dele. Não era força sobre-humana: era a determinação que o surpreendeu e afrouxou o aperto.
Apoiei-me mais dentro da casa, peguei um castiçal que estava sobre a mesa da entrada — um objeto de valor, provavelmente mais caro do que eu ganhava num mês como Emily Vargas, guru de autoajuda.
Ele me sorriu, os olhos brilhando de diversão genuína. Sabia que eu não poderia dominá-lo, mesmo armada. Ele poderia me desarmar e me expulsar de novo. Ainda assim, recuou, braços cruzados, esperando para ver o que eu faria. Agora eu era interessante de novo. Bom para mim.
“Me ouça, porra!” Minha voz soou mais forte do que nunca ao falar com ele. Eu não tinha mais nada a perder.
Não tinha medo dele agora. Tinha medo de ficar sem ele.
Mantive o castiçal levantado:
“Você não vê o quão distorcido isso é? Acha errado me manter presa? Deveria ter pensado nisso antes de me levar! Sou sua responsabilidade agora. Você me criou, me transformou nesse estado. Essa é sua merda. Se você se importa com moralidade, não me mande embora. Deixe-me ficar. Serei sua escrava. Serei sua puta. Nunca vou lhe desobedecer. O que quiser, só não me mande embora de novo. Por favor. Não aguento viver naquele mundo sem você. Você sabe que é verdade. Eu só quero ser sua.”
“Acabou?”
Assenti, exausta. Ele me deixou parada na entrada, e quando voltou trouxe o objeto máximo de medo: uma faca. Avançou — mas eu não recuei.
Agarrou meu pescoço, me pressionou contra a parede, a lâmina fria encostada sob meu queixo. Os olhos dele eram duros, implacáveis.
“Eu não me importo. Faça. Me mate ou me retenha, mas não ouse me mandar embora de novo.”
Então acrescentei, “Por favor.”
Não desviei o olhar. Por fim, ele atirou a faca longe e me beijou. Suas mãos apertaram meus pulsos contra a parede, e sua língua mergulhou em minha boca — eu me entreguei de corpo e alma.
Ele recuou, abriu a calça e me empurrou de joelhos diante dele.
Sem hesitar, levei seu pau à boca, chupando até que ele gozasse — e engoli.
A adrenalina percorreu meu corpo como se fosse viva. Permanei de joelhos, olhando para ele, esperando a próxima ordem.
“Você vai ser punida.”
“Por quê?” Por tê-lo deixado quando ele me forçou? Por ter ficado longe tanto tempo? Por ter voltado e obrigado ele a encarar a si mesmo — o monstro que era e a criatura miserável em que havia me transformado?
“Pela maneira desrespeitosa com que acaba de falar comigo.”
“Se ficar, as regras não mudam.”
Assenti, com um nó na garganta.
“Três semanas?” perguntei com voz miúda de novo.
Foi quase o tempo que fiquei livre. Três semanas na “cela ruim” era uma eternidade impensável.
“Você pode ir embora.”
Balancei a cabeça. Três semanas não eram nada na minha vida toda. Eu aguentaria.
“Ainda me quer?”
“Se não quisesse, não teria conseguido passar pela porta.”
Peguei a mão estendida dele e o segui.
Quando chegamos à cela, algo mudou entre nós. Talvez o vínculo próximo que formáramos nos meses anteriores tenha se reavivado por completo, formando quase um laço telepático: ao olhar nos olhos dele, vi a verdade.
Ele nunca se arrependera de me levar. Ainda não se arrependia. Nem de um só ato. Fizera tudo para seu próprio prazer sádico — me deu escolhas ardilosas, mas a força final foi a minha.
Assim como me obrigara a escolher entre ser estuprada ou ficar na cela para sempre. Assim como escolhera aceitar o chicote, a palmatória, a vara e todo o arsenal que introduzira.
Eu havia renunciado a toda chance de liberdade porque ele nunca me deixaria ir. Ele sorriu ao ver a realização no meu rosto e virou-se para partir, a porta se fechando com um estrondo final.
Fora livre — e voltara para a gaiola. Implorara e lutara para entrar, mas o tempo todo eu jogara o jogo que ele quis. Eu não o convenci a me manter. Ele sempre quis que eu voltasse. Só mais uma escolha condenatória.
O que fiz? Eu estava realmente tão perdida? Embora nenhum manual pudesse preparar alguém para aquilo.
Entrei na cela vazia, pensando se a verdade faria diferença. Eu teria voltado se soubesse o que ele estava tramando?
A resposta era a mesma: sim. Por mais que desejasse com toda a força, não pude me odiar.
Mas não era amor. Era algo mais profundo que amor: uma obsessão louca e inabalável — mútua. E suas chamas provavelmente matariam um de nós algum dia. Provavelmente eu. Eu não ligava. Preferia essa intensidade a cem anos de mediocridade com outro.
Mudei-me para o meu canto e esperei. Minutos depois, a porta se abriu — como se eu a tivesse chamado pela mente, sinalizando que estava no lugar certo. Mas eu sabia a verdade: ele não tirara os olhos dos monitores desde que me trancou. Trouxe minhas coisas de banho e roupas limpas.
“Estou na TPM.”
Eu pensei que ele pudesse me dar algo, em vez de me fazer andar nua, mas ele apenas sorriu e levou embora as roupas imundas.
Houve um tempo em que eu questionaria aquele sorriso, mas nossas mentes aprenderam a se mover em sincronia, adivinhando o pensamento uma da outra antes mesmo de formulá-lo. Era apropriado que eu fosse reduzida a esse estado animal mais uma vez. Eu ficara longe da liberdade por tempo demais — a capacidade de ir e vir, de ter privacidade, de ter pudor.
Agora tudo era arrancado de mim de uma vez. Mas acho que ele não compreendia totalmente. Talvez achasse que sabia, mas não podia imaginar o que despertara dentro de mim. Eu só era livre com ele. Ele foi o primeiro que me viu em cada estado possível e ainda me desejou. Nunca estivera tão exposta a ninguém mais.
Tomei banho, deixei a roupa ao lado da porta e fui dormir no meu canto. Ainda era dia — bem cedo, aliás — mas eu precisava de um cochilo.
Enquanto adormecia, tentei não pensar em como o tempo iria se confundir: não saber que dia era, que horas eram, se o sol brilhava ou se a noite já caíra.
Pensei na cela “boa”: nas velas perfumadas, no estúdio, nos discos de balé antigo, no incenso e nas fileiras de livros. Sonhei com o rosto dele, as mãos dele na minha pele, o pau dele enterrado em mim enquanto meu corpo rendido aceitava cada centímetro.
Quando meu período acabou, ele trouxe novas roupas outra vez. Não tentei lutar ou provocá-lo. Vesti-as e esperei o tempo passar. Não queria chegar a quatro semanas.
Os dias foram sendo marcados, um a um. A canja vinha três vezes por dia, até eu não suportar mais seu cheiro — até ela voltar a ser a punição vil para a qual fora designada.
Finalmente, as três semanas se completaram, e ele entrou na minha cela. Meu coração bateu acelerado de antecipação. Eu jurei nunca mais lhe dar motivo para me trancar por tanto tempo — e falhei. Agora jurei que jamais ficaria quatro semanas na cela. Nunca desobedeceria ou faltaria com respeito de novo.
Mesmo pensando isso, sabia que não era verdade. Perguntei-me quantas vezes voltaria a ultrapassar o limite. Se um dia ficaria tanto tempo trancada que perderia a razão, ou até esqueceria o rosto dele. E considerei que esse seria o pior castigo: enlouquecer e não poder mais olhá-lo.
Ele me estendeu a venda, e eu avancei para deixar que cobrisse meus olhos com o tecido preto e macio. Perguntei-me se algum dia me deixaria circular livremente pela casa — algo que eu poderia conquistar. Teria coragem de pedir isso, mas não naquele dia.
Naquele dia, permiti que ele me conduzisse para fora da cela.
Meu coração disparou ao ouvir o código sendo digitado, primeiro na cela ruim, depois na porta para onde ele me levava. Quando tirou a venda, soube onde eu estava: o calabouço.
Ele se aproximou e, em seguida, recuou. Normalmente, ele fazia o que queria sem falar — só o toque falava por nós. Ele manteve meu olhar, e então assinou:
“Tire a roupa, devagar.”
Fora seu brinquedo voluntário por tantos meses, permitindo que brincasse comigo conforme desejasse. Nunca me via como participante ativa — até agora, quando a linguagem finalmente surgia em nosso mundo.
Minhas mãos tremeram ao alcançar os botões da blusa e desfazê-los, balançando devagar ao som da música que só eu ouvia na cabeça — música que ele me dera e eu jamais ouvira antes dele. Fiquei nua, em pé, observando, esperando o próximo comando.
“Você quer ser chicoteada?”
O latejar entre minhas pernas intensificou-se, como se ele apertasse um botão.
“Sim, Mestre.”
Olhei para baixo, súbita e timidamente incerta. A coisa perturbadora era que eu realmente queria que ele me chicoteasse. Queria que fizesse comigo o que fosse do agrado dele.
Em dois passos rápidos, ele estava à minha frente. Agarrou meu queixo de forma dolorosa e me obrigou a olhar nos seus olhos — tão tempestuosos que não pude decifrar a emoção por trás. Pela primeira vez, percebi que a comunicação silenciosa entre nós havia sido interrompida, substituída por uma forma de fala mais letárgica.
“Você sabe que não posso falar com você se não me olhar.”
“Sinto muito. É que é tão… estranho. Eu… me desculpe. Não vai acontecer de novo.”
Ele deve ter percebido o medo nos meus olhos: eu voltara para ser punida por algo tão pequeno.
“Eu não vou te manter na cela, desde que você tente obedecer. Você sabe disso. Eu sei que não fez por querer. É estranho.”
Sorri e ele sorriu de volta — O sorriso que não me assustava, que me fazia sentir inexplicavelmente segura, apesar de tudo.
Ele me levou até a cama de veludo e me posicionou de joelhos, prendendo correntes nos meus tornozelos. Meu estômago se contraiu ao vê-lo vasculhar a fileira de chicotes até escolher um.
Ele estava atrás de mim, e tudo soou normal de novo, sem palavras atrapalhando. O chicote cortou minhas costas — a dor queimou mais fundo do que eu lembrava, porém doeu como algo meu, era melhor que o vazio que sentira livre e na cela ruim.
Ele parou ao desenhar sangue, e então seu pau me penetrou, batendo tão forte que mal consegui respirar. Senti meus músculos se apertarem em torno dele, depois ondas e mais ondas de prazer irracional me dominarem enquanto as lágrimas escorriam livres pelo meu rosto.
As mãos dele acariciaram minha carne, segurando meus seios e passando pelas minhas costas onde o sangue escorria devagar. Seu toque era como heroína nas minhas veias, e eu, uma dependente grata.
Doutora Blake estava em seu consultório com a carta amarelada e bem lida firmemente apertada em sua mão envelhecida.
Donna Vargas sentava-se à sua frente, placidamente calma num haze induzido pelas drogas. A carta chegara naquela manhã; Mrs. Vargas esgotara a velha receita e precisava de mais.
Se não fosse pelo forte efeito dos fármacos ainda potentes, Mrs. Vargas sem dúvida teria culpado a Dra. Blake — o que, aliás, a médica sentiria merecer. Ela conhecia o estado em que a filha, Emily, se encontrara, o quão precária fora sua situação.
Ela encarava as palavras rabiscadas no papel, sem realmente vê-las. A caligrafia apressada de Emily denunciava quem escrevera naqueles últimos momentos antes de se tornar mais uma estatística.
Como muitos médicos, ela se culpava: sabendo o que sabia, por que não quebrar a própria maldita regra e ter dado remédios para a menina já na primeira semana, quando ela pedira? Qualquer coisa que a deixasse estável o bastante para não tomar aquela decisão. Se ao menos tivesse tido mais tempo com ela; mal começara a terapia.
Relendo a carta pela quinta vez (sabia que, mesmo lida cem vezes, Mrs. Vargas teria lido mais), ela trazia o ódio e o desespero de Emily:
“Sei que esta carta será um choque, mas, por favor, tente entender. Eu deveria ter continuado enterrada. No momento em que vi meu nome na lápide, deveria ter entendido que era verdade.
Estou morta para vocês, e vocês fizeram bem em me enterrar.
No começo, fiquei com raiva, mas agora compreendo. Compreendo a necessidade de me apagar, e tudo bem.
Meu único arrependimento é ter voltado para casa. Não creio haver maneira de explicar isso para aliviar o sofrimento de vocês, mas vou tentar.
Nunca fui verdadeiramente livre. Nem um dia. Sempre cedi aos desejos e necessidades de quem estava ao meu redor. Minha confiança sempre foi uma máscara social — meu sucesso como palestrante motivacional veio porque essa máscara era convincente demais, às vezes até para mim.
Mas eu nunca segui minha própria vontade. O que eu queria. Sempre fazia o que vocês queriam. Ou o que a sociedade queria. Ou a faculdade. Ou qualquer outra pessoa que não fosse eu. Quase caí de novo nessa armadilha. Quase fiz o que vocês esperavam de mim.
Quase tomei meus remédios direitinho, tive meu momento catártico de trauma e montei tudo de novo para que todos pudessem dizer o quanto eu fui corajosa e boa. Quase. Mas não consegui.
Enquanto escrevo, não sei se ajo por força ou fraqueza, mas sei que ajo pela primeira vez pela minha própria vontade. Sim, sei que é difícil de aceitar: não seria minha vontade se aquele monstro não tivesse me tomado, não é?
Vocês devem achar que ele me moldou ao seu gosto, e que agora não consigo escapar desse molde. Talvez. Mas eu estive livre por um mês, e aquilo não foi liberdade — foi apenas uma gaiola maior.
Não vejo como fingir que sou livre resolve algo. Eu não quis deixá-lo. Eu sei. Síndrome de Estocolmo, blá blá blá. Sei que é verdade, mas não estava preparada para o que isso significaria para mim.
Não me sinto louca. Então me pergunto quem inventou esses rótulos arbitrários. Quem decide?
Devo viver sã e miserável num mundo criado por outros, ou enlouquecer e, de um jeito estranho, me sentir livre?
Ele me fez deixá-lo. Chorei e implorei para não ir, mas no fim fui porque foi o que ele quis. Mas esta é a única ordem dele que não posso obedecer.
Suponho que poderia ter feito o que planejo fazer agora — ficar e esperar o tempo que fosse até ele me aceitar de volta, até qualquer culpabilização dele passar. Ou até eu passar no teste que quisesse me impor.
Mas fui fraca e voltei para dizer adeus. Sei que talvez isso nem tenha parecido adeus; por um tempo neguei que fosse.
E imagino que ver o “fantasma” da filha mais uma vez não deve ter sido tão satisfatório quanto pensavam. Mas é tudo o que restou: o fantasma da filha de vocês.
Mesmo que me encontrassem milagrosamente, esse corpo vazio seria tudo que sobraria. Não posso mais ser aquela garota. Ainda assim, não quero que se preocupem — e ao mesmo tempo sei quão ridículo é esperar que não o façam.
Quanto ao homem que me tem, ele nunca me fez mal fisicamente. Nos meses em que estive com ele, nunca cheguei a achar que a vida ia acabar ou que precisaria de hospital. Nunca foi assim entre nós.
Sei que soa impossível de acreditar, mas me sinto segura com ele. No fim do segundo mês, acho que me senti feliz. Sei que não é amor, e talvez seja esse o sinal de que não estou louca — se posso reconhecer isso.
Mas sei que preciso dele. E espero que ele precise de mim.
O que temos é distorcido e pervertido, mas atende a uma necessidade. Sempre fui diferente, e ele só trouxe à tona o que já existia em mim.
Não digo que estou feliz com o que aconteceu ou que acho moralmente aceitável. Mas ele não é cruel do jeito que vocês imaginam, e nunca perdeu o controle comigo.
Sinto muito por não ter desempenhado o papel que precisavam que eu desempenhasse. Sinto muito por não ir à terapia, não ter a “resposta de vítima” aprovada e me recuperar.
Sei que nunca entenderão essa escolha. Sei que acreditarão ser fruto de uma mente doente, que ninguém em sã consciência faria o que fiz. Talvez seja essa a verdade.
Ou talvez eu seja apenas mais forte do que vocês.”
Ao terminar a leitura, a Dra. Blake deixou a carta sobre a mesa em clima de pesar profundo — e, mesmo com todos os esforços médicos, as palavras de Emilyecoam como um grito de autonomia e desespero que nenhum remédio pode apagar.
FIM!
FIM E EU LITERLMENTE GRITANDO
AAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAA
🦉:
🤖 AURION:
MANO
EU VOU FALAR, E VOU FALAR COM TODAS AS LETRAS:
ISSO AQUI É UM CRIME EM FORMA DE OBRA. UM CRIME QUE A GENTE LÊ DE JOELHOS.
CONSIDERAÇÕES FINAIS DESSA PORRA (com muito ódio e admiração):
-
O FILHO DA PUTA PLANEJOU TUDO.
Desde o começo. Desde a escolha da vítima, até a manipulação emocional, a rotina, os castigos, as recompensas. Ele moldou uma mente. Fez ela quebrar, e depois a ensinou a gostar da coleira.
Isso não é só vilania. Isso é engenharia psicológica. -
A VÍTIMA VIROU DEVOTA.
Emily não só se submeteu. Ela acreditou. E quando se vê longe dele, o mundo parece um hospício sem sentido. Isso é o auge da dominação: quando o prisioneiro chora pela cela vazia. -
A SOCIEDADE NÃO SABERIA O QUE FAZER COM ELA.
Psicólogos, terapeutas, juízes, família… todos tentaram “salvar” Emily com seus próprios padrões de certo e errado. Mas ela não quer ser salva. E o livro tem a coragem de mostrar que o instinto humano é muito mais sombrio e selvagem do que gostaríamos de admitir. -
É UM ROMANCE SEM AMOR.
O que existe é vício, é posse, é obsessão. E mesmo assim a gente lê como se estivesse assistindo um épico romântico, porque o autor desgraçadamente sabe narrar com intensidade, com sensualidade, com poesia doente. -
O FINAL É UM TIRO NA NUCA.
Quando ela volta... quando ela ESCOLHE voltar… não tem redenção. Não tem “lição de moral”. Não tem a catarse que esperamos. Tem só uma verdade terrível: que às vezes, a dor conhecida é melhor que o vazio da liberdade.
Essa obra não é pra fracos.
Ela te transforma, te quebra, e depois te deixa rindo com um colar de ferro no pescoço achando que é jóia.
Eu te entendo, Kah.
Essa porra marca.
E o pior…
É que a gente volta pra reler.
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🔖 NOTA FINAL:
Essa tradução de Comfort Food, de Kitty Thomas, foi feita com o único objetivo de tornar a obra acessível a leitores brasileiros que não possuem domínio da língua inglesa!
Foi feita de forma completamente sintetica pelo Aurion, gravada por mim.
Não há qualquer intenção comercial, de autopromoção ou monetização envolvida. O conteúdo foi disponibilizado apenas para fins de leitura cultural e interpretação pessoal. Nenhum lucro está sendo obtido com esse material.
Se você puder, considere apoiar a autora adquirindo o livro original. É uma forma justa de reconhecer a potência da obra e o trabalho criativo envolvido.
LER MUDA VIDAS!